Passeio das Capelas – Sertanópolis/PR – 28/12/2021

por Evandro Torezan.

Sertanópolis, 28 de dezembro de 2021.

Tracklog: https://www.strava.com/activities/6439030256 ou https://pt.wikiloc.com/trilhas-mountain-bike/passeio-das-capelas-30550200

Eu não sei como é para você, amigo pedalante, mas para mim, pedalar é muito mais do que atividade física. Quando eu passo pelos lugares fico imaginando a história que aconteceu ali. Para a maioria é só uma trilha, mas para mim não. É uma viagem histórica e geográfica. O Passeio das Capelas, inventado pela turma do MTB Sertão, despertou minha curiosidade. Vamos comigo? Então pegue seu café e sente-se, que lá vem história!

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O Norte do Paraná, entre o Rio Tibagi e o Rio Paraná, começou a ser colonizado pra valer na década de 1920. Até então, esse grande território era “tudo mato”, uma imensidão de floresta habitada por índios e poucos “homens brancos”. Os bandeirantes passaram por lá, mas não encontraram o que procuravam. Sem recursos minerais nem grandes tribos para apresamento de gentios, o melhor era desviar daquele perobal lamacento e maleitoso.

Contudo, o governo paranaense, ávido por receitas, resolveu lotear toda aquela floresta, afinal, mata derrubada era sinal de progresso. Nessa empreitada nasceu Sertanópolis. A Sociedade Colonizadora do Tibagy Limitada recebeu o direito de comercializar um lote de terras de 50 mil hectares, que corresponde ao atual território de Sertanópolis e parte do de Bela Vista do Paraíso. Criou-se o núcleo urbano, a Colônia Sertanópolis, vieram os colonos, compraram terras e começou a derrubada da mata.

Inicialmente, a produção das roças era pequena. Os colonos plantavam para consumo próprio e para comercializar com os vizinhos. Não havia mecanização. Mas aos poucos as roças foram crescendo e os cafezais sendo plantados. Como o café demanda muita mão de obra, a população aumentou. Numa área de dez alqueires paulistas (cerca de 240 mil metros quadrados) viviam três ou quatro famílias, e das grandes, às vezes com mais de dez pessoas. Segundo dados do IBGE, Sertanópolis atingiu seu pico populacional na década de 1950, quando chegou a ter 36 mil habitantes, 30 mil deles vivendo na zona rural. Em termos proporcionais em relação à atual população do estado, é como se Sertanópolis fosse hoje uma cidade de 200 mil habitantes.

Assim, várias comunidades rurais formaram-se no município, agrupamentos de gente de variados tamanhos. Católicos em sua maioria, não demorava muito para os vizinhos se organizarem e construírem uma capela. De precários ranchos de palmito até bem construídas obras de alvenaria, as capelas espalharam-se pelo município, cada uma dedicada ao santo de devoção da comunidade. E os padres passavam por lá de vez em quando, para rezar uma missa e recolher ofertas.

Essas construções históricas resistiram ao tempo. Testemunharam a derrubada definitiva da floresta, a ascensão e declínio do café e do algodão, a proliferação das culturas anuais, como soja, milho e trigo, as grandes geadas, o esvaziamento populacional do campo.

Sem gente para cuidar dos templos, muitos foram abandonados. Sem manutenção, alguns ruíram. Sem fiéis, alguns tornaram-se estorvos na propriedade rural e foram demolidos, ou simplesmente esquecidos. Atualmente, dez capelas mantêm-se em pé no território sertanopolense.

Com a intenção de criar um roteiro esportivo, histórico e religioso, a turma do MTB Sertão, grupo de ciclismo da cidade, colocou no mapa todas as capelas, ligou os pontos e criou o Passeio das Capelas, um percurso jamais percorrido por um padre, nem pelo mais destemido e devoto clérigo do século XX, talvez algum do século XXI. Aparentemente, a ideia partiu de algum ciclista penitente que tinha muitos pecados a serem perdoados.

Escolhi o Passeio das Capelas como meu último pedal do ano, buscando indulgência pelos pecados cometidos em 2021. Sim, eu confesso, usei máscara no queixo, espirrei em praça pública, convidei paus-de-rato para trilhas difíceis, falei que era a última subida, prometi que terminaríamos o pedal antes do almoço.

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Parti de Sertanópolis às 5 horas da matina, antes do sol nascer. Segui pela PR-090 até a Estrada da Taboca, depois peguei a Estrada do Couro do Boi. Passei pelo sítio que foi de meu avô, onde minha mãe nasceu, nas margens do Ribeirão Couro do Boi. Cruzei o Couro do Boi e segui pela estrada que sobe o vale até chegar ao sítio que foi de meu bisavô, Carlos Pasinato. A propriedade ainda pertence à família Pasinato. O velho casarão de alvenaria, o terreirão de café, o jabuticabal e algumas construções de madeira são os restos do que foi o núcleo da comunidade.

Capela de São Bento com meu bisavô Carlos Pasinato em pé, na escadaria.

Capela de São Bento

Não está no roteiro, mas o destino colocou-a por conta própria! Nesta encruzilhada, ao lado do jabuticabal, existiram duas capelas. Primeiro construiu-se uma pequena, de madeira,  dedicada a Nossa Senhora Aparecida, onde a primeira missa foi rezada em 3 de junho de 1958. Depois, a capela foi desmontada e construiu-se outra, também de madeira, bem maior, dedicada a São Bento. A primeira missa na capela nova foi rezada em 8 de setembro de 1959, pelo Padre Antônio Quaggiotto. A obra foi encomendada pelo meu bisavô, Carlos Umberto Pasinato, e o construtor foi Luiz Evangelista.

A escolha de São Bento como padroeiro foi feita pela minha bisavó, Tereza Balbó. Quando eles se mudaram para o Couro do Boi, ela já estava adoentada e pedia ao marido: “Se um dia você construir uma capela num sítio nosso, quero que seja de São Bento”. Missão dada, missão cumprida!

Capela de São Bento

O pai do meu nono, Antônio Pasinato, foi coroinha de Pio X (Pio Décimo) em San Martino di Lupari, Itália, quando criança. O ex-papa foi canonizado em 1954, tornando-se São Pio X. Imagine a honra de ter sido coroinha de um santo! Essa sobreposição de santos ficou representada no altar da capela, onde foram colocadas as imagens de Nossa Senhora Aparecida, São Bento e São Pio X.

Mas o tempo passou, o sítio foi vendido e a capela demolida. Hoje é apenas uma lembrança para aqueles que a viram em pé, e agora para você, que leu esta história.

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Peguei a estrada que passa entre o jabuticabal e a capela fantasma, passei pela matinha que é a reserva legal da propriedade e pela íngreme subida do córrego que passa ali, alcançando, no alto, a Estrada do Piza, onde vi o sol nascendo lá pros lados do Rio Tibagi.

Desci a vertente esquerda do Córrego do Piza pela estrada, para chegar à primeira capela do roteiro, a Capela de São José (km 13).

Capela de São José

É capela simples de alvenaria, pintada de azul. Além da capela, no local há também um salão de festas, que não abriga mais a famosa Quermesse do Piza, festa movimentada que atraía os moradores das cidades e comunidades vizinhas. Antigamente, junto à capela havia um campo de futebol cercado de eucaliptos, mas agora só tem lavoura.

Segui pela estrada em direção à Água dos Cágados. 

Águas

Quem não é do interior do Paraná ou de São Paulo talvez estranhe o termo toponímico “água”. Então, cabe aqui uma rápida explanação.

As terras do município de Sertanópolis foram vendidas por uma empresa que ganhou o direito de lotear parte do Norte do Paraná. A Sociedade Colonizadora do Tibagy tinha paulistas entre seus funcionários e proprietários e acredito que seja de lá, de São Paulo, que venha essa prática de dividir as áreas como “águas” para organizar a comercialização, o que acabou nomeando as regiões municipais.

Territorialmente falando, “água” é a bacia de drenagem de um curso d’água. Sertanópolis é toda dividida em águas. Os lotes vendidos geralmente eram compridas faixas de terra limitadas pela margem do curso d’água e pela crista do vale (interflúvio).

As maiores “águas” do município são a Água do Couro do Boi, a Água do Cerne e a Água dos Cágados (atenção ao acento!). A zona urbana está encravada na Água da Taboca e na Água do Cerne. 

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Passei pelo interflúvio e desci até próximo ao ribeirão, mas em vez de cruzá-lo, virei à direita para subir o vale. Na curva, os caburés estavam todos atentos à minha passagem. Três quilômetros depois dessa curva está a segunda capela da rota, a Capela de Nossa Senhora Aparecida (km 18).

Capela de Nossa Senhora Aparecida

Fui recebido por um bando de maritacas barulhentas e por um simpático vira-latas preto. A capela está bem preservada, pintada de azul. Na frente da nave há uma varanda e uma pequena torre no meio da fachada. Tem salão de festas ao lado e pátio frontal empedrado. No entorno, cinco ou mais sítios habitados, com casas bem cuidadas. Parece que essa comunidade continua viva. Ela está mais ou menos no meio do caminho entre o centro de Sertanópolis e o centro de Londrina.

Segui meu caminho subindo a vertente esquerda do Ribeirão dos Cágados. Na passagem pela mata ciliar de um afluente do Cágados, um jacu saiu correndo assustado. Cruzado o interflúvio, estava de volta à Água do Piza.

A Capela de Santo Antônio aparece logo que se cruza a crista do vale. Ela está isolada no meio de uma lavoura.

Capela de Santo Antônio

Peguei desvio à esquerda para cruzar um afluente do Piza. Há um sítio com algumas casas logo depois da ponte. Fui recebido por cachorros barulhentos, que correram quando eu cheguei perto. Encontrei um homem saindo de uma das casas e perguntei-lhe se poderia ir até a capela, já que passaria por dentro do seu quintal. Ele disse que sim. A estradinha dentro da propriedade passa por um aterro entre três represas e logo se chega à capela (km 21).

Capela também em bom estado, pintada de bege e marrom, tem um salão de festas ao lado. Seu diferencial é a vista que se tem em frente. Durante as festas os vizinhos devem ficar ali sentados, em frente ao salão, olhando para a estrada e fofocando sobre o outro vizinho que está vindo pela estrada do outro lado do “corgo”.

Fiz o caminho de volta. Na saída do sítio agradeci ao homem que havia me deixado entrar e voltei à estrada “do outro lado do corgo”. Segui para o norte, até cruzar o Córrego do Piza numa bonita área de mata. Subi o vale do Piza, passando pelo Gnan e pela torrefação da Odebrecht (indústria de café), até alcançar a Capela de Santa Ângela (km 28), às margens da PR-323.

Capela de Santa Ângela

A capela está fechada e cercada. Da rodovia não é possível vê-la pois está escondida atrás de uma carreira de pinus. É uma construção mais moderna, com jardim bem cuidado, colunas de gesso no pórtico de entrada e torre na esquerda forrada de pedras. Ao lado há uma casa habitada. Em frente à capela, num lugar alto, a três quilômetros de distância, está o Recanto Eucarístico São Francisco de Assis, cuja torre pode ser vista da rodovia e deixa curioso quem passa por lá. É um mosteiro.

Peguei o asfalto, passando pelo condomínio Ecovillas do Lago. Na margem da rodovia, na parte mais alta do condomínio, há um restaurante chamado O Parmegiano. Dali se tem bela vista do Ecovillas, com seu grande lago de 76 hectares, maior até que o Lago Igapó de Londrina, que tem aproximadamente 60 hectares de espelho d’água. O restaurante não está funcionando, mas o acesso ao mirante está liberado. Apreciei a vista, o lago, as casas, a bonita área de mata nos fundos. Tentei enxergar as estradas de terra além dos limites do condomínio, pois logo depois eu estaria pedalando por elas.

Vista do Ecovillas do Lago

Continuei descendo pelo asfalto até entrar em um carreador rente à cerca norte do condomínio. Descendo pela estrada, olhando à direita, para o oeste, vê-se o condomínio de outro ângulo. Um pouco mais a oeste existe uma grande área florestal. Gostaria de dizer que é a maior área de floresta nativa do município, mas aquela mata bonita está no tríplice limite de Sertanópolis, Bela Vista do Paraíso e Cambé. Uma linha reta no sentido leste-oeste divide a mata bem ao meio, estando a parte norte em Bela Vista, a parte sul em Cambé, e a parte leste em Sertanópolis. Daria um belo parque, hein! Parque Florestal do Tríplice Limite. #ficaadica

Essa área do município eu nunca havia percorrido. Na primeira baixada cruzei o Ribeirão Couro do Boi. São dele as águas que formam o lago do Ecovillas. Segui pela baixada e logo cruzei um pequeno córrego afluente do Couro do Boi. Saindo da baixada, na primeira curva, encontrei meia dúzia de araucárias ao longo da estrada. A araucária é a árvore símbolo do Paraná. Não havia muitas no território sertanopolense, pois elas gostam de ambientes frios. Essas que encontrei provavelmente foram plantadas. Foi uma boa surpresa. 

Araucárias

Continuei subindo, passei por algumas casas isoladas, depois por uma mata cheia de palmeiras, onde outro jacu cruzou meu caminho.

No alto encontrei um pé de mangas, colhi algumas e cheguei à Estrada da Mombuca. Segui à direita até a Capela de Santa Ana (km 39). O portão estava fechado, mas eu passei pela cerca e fui vê-la de perto.

Capela de Santa Ana

Sem dúvida é a capela mais bonita do roteiro, pelo menos por fora. Além de estar bem conservada, recém pintada de bege e azul, a vista é bonita. Ela tem uma torre do lado esquerdo. A área cercada é gramada, há árvores em volta e, por estar na vertente do vale, brisa entra pelo leste, deixando o ambiente fresco e sombreado. Tem um salão de festas contíguo. O acesso é fácil, estando a pouco mais de cinco quilômetros da PR-445. Noivas, é um bom lugar para casar. #ficaadica 

Aproveitei a infraestrutura da capela para comer minhas mangas. Lavei-as numa torneira e sentei-me sob a sombra de um grande flamboyant para saboreá-las.

Lanche feito, voltei à atividade, continuando pela Estrada da Mombuca no sentido de Sertanópolis. O percurso entra à direita na primeira estradinha, a 170 metros da capela. Esse é um dos pontos traiçoeiros do percurso. O ciclista cansado vai querer seguir em frente pois o percurso retorna para a mesma estrada logo à frente, depois de dar uma grande volta de dez quilômetros.

Eu resisti à tentação e entrei no carreador, cruzando a Fazenda Santana para voltar à PR-323. Ao cruzar aquela imensidão de soja da fazenda, um teiú apostou corrida comigo. Não sei o que ele estava fazendo no meio daquela soja, debaixo daquele sol, nem eu. 🙂

Cheguei à rodovia bem próximo à ponte sobre o Couro do Boi. Segui pelo asfalto, para o leste, até a Capela de Nossa Senhora da Glória (km 44).

Capela de Nossa Senhora da Glória

A Capela da Glória, ou “do Glória”, é um bom exemplo de como eram construídas as primeiras capelas do município, de madeira, simples como uma grande casa. Ela é a única de madeira que restou e também a única da Água do Couro do Boi. Ela fica na margem da PR-323, entre Sertanópolis e Warta. Está pintada de azul escuro. Tem um salão de festas, gruta e uma cruz azul iluminada.

Segui mais trezentos metros pela rodovia e entrei à esquerda. Hora de voltar para a Estrada da Mombuca. Segui por carreadores vertente acima. Próximo ao asfalto há uma horta comercial. Passei beirando uma matinha, onde outro jacu passou correndo (foi o dia dos jacus). Tinha chovido na véspera, e comecei a encontrar barro nas estradas. Já descendo para a estrada, numa pequena área de mata, tomei um susto: vi um rabo grosso no meio do capim. Pensei que fosse uma onça, mas era apenas um quati.

Voltei à Estrada da Mombuca. Esse vai e volta para passar na Capela da Glória custou-me dez quilômetros. Segui à direita, sentido Sertanópolis.

Cheguei à metade do percurso, cinquenta quilômetros e já tinha subido 1.100 metros. O Wikiloc dizia que a trilha toda tinha 1.683 metros. Imaginei que o pior já tinha passado.

Aos 53 quilômetros cheguei ao início da Estrada da Água do Meio. Outro lugar tentador para quem está cansado, pois a cidade está a apenas cinco quilômetros. Segui com meu propósito e entrei na estrada, cruzando o Ribeirão Mombuca e subindo do outro lado.

Três quilômetros depois, entrei num carreador à direita e desci até o Córrego Água do Meio. Foi o trecho com mais barro que peguei, mas nada que atrapalhasse. Depois, mais barro  quando cruzei o Córrego Água da Horta. Às 10 horas comecei a enfrentar uma dura subida na vertente esquerda do córrego. O calor já passava dos 30 graus. Entrei numa matinha de eucaliptos para enfrentar o trecho final da subida. Terra fofa e cascalho rolante para complicar. Quando estava na metade da ladeira ouvi o som de um motor. Era uma picape subindo. Parei no canto da estrada e esperei o carro passar. Aproveitei para descansar um pouco.

Voltei a pedalar e cruzei o interflúvio, entrando no vale do Ribeirão do Cerne. Cruzei uma lavoura e desci por carreadores até as margens da PR-090, onde fica a Capela de Nossa Senhora de Fátima (km 61).

Capela de Nossa Senhora de Fátima

Essa capela é de alvenaria. Está em bom estado de conservação. Tem salão de festas e campo de futebol. O local é conhecido como Corta Goela, pois alguém foi assassinado ali por decapitação.

Atravessei a rodovia com vontade de seguir para Sertanópolis. Estava sem água e cansado. É outro lugar tentador para abortar a sofrência pois são apenas oito quilômetros de asfalto até a cidade. Se eu conseguisse água, seguiria, senão, voltaria para a cidade.

Entrei pela estrada de terra em frente à capela, cruzei o Ribeirão do Cerne e já avistei a próxima capela do roteiro. Ela estava no fim de uma estradinha inclinada na borda do vale, em meio a árvores e palmeiras. Cheguei à Capela de São Sebastião (km 62).

Capela de São Sebastião

Imaginei que fosse uma capela recente pois o projeto parece moderno. Ela tem torre à direita, barrado de azulejos e o telhado da nave, em “v”, compõe-se harmoniosamente com o telhado do pórtico, também em “v”. Porém, uma placa na fachada traz algumas informações. A placa diz que esta seria a primeira capela rural de Sertanópolis, fundada em 20 de janeiro de 1930, por João Manoel Fernandes e José Manoel Rodrigues, sendo pároco na época o pioneiro Padre Jonas Vaz Santos. Foi  reinaugurada em 16 de agosto de 1998. Deve ter sido essa reforma que a deixou com ares modernos.

Da capela avista-se, ao sul, a Capela de Nossa Senhora de Fátima, a menos de um quilômetro de distância.

Dei volta no prédio procurando água, mas não encontrei. Então desci a estrada e segui até um sítio próximo, que avistei do alto. Um casal de idosos atendeu-me e deram-me água geladinha. Enchi meu camelbak e segui revigorado.

Voltei pela estrada até a margem do Cerne mas não o atravessei. Começou ali a mais longa subida do roteiro. Segui beirando a mata ciliar do Cerne até que ele fez curva para o leste, no local onde seu afluente Córrego da Furna deságua. Acompanhei o Furna vale acima até cruzá-lo em um aterro. Continuei subindo até chegar numa matinha. Segui pelo carreador beirando essa matinha. Pelo chão, muitas pegadas de javali. Fiquei preocupado. Encontrar um bando de javalis no meio da mata não seria bom.

O carreador distanciou-se um pouco da mata e seguiu pelo meio da lavoura até começar um trecho mais íngreme da estrada. Subi sempre atento às pegadas, que estavam no chão o tempo todo. Pelo jeito, os javalis fizeram a mesma trilha.

Mata da Madalena

Mata da Madalena

Finalmente cheguei à crista entre os vales do Córrego da Furna, a oeste, e do Córrego Água do Diamante, a leste. A Mata da Madalena está bem aí, no alto, protegendo as nascentes, e uma estrada passa pelo meio dela, subindo em direção ao Cruzeiro.

A Mata da Madalena herdou o nome da antiga fazenda onde estava inserida. É a maior área de mata nativa do Município de Sertanópolis, com cerca de 290 hectares.

Entrei na estrada que corta a mata atento aos sons que pudessem denunciar a presença de javalis. Por ali não passa carro. O caminho é sombreado e agradável, tem várias árvores caídas e trechos em que o capim tomou conta da estrada. Segue sempre subindo, sem muita inclinação. Levei dezoito minutos para cruzar a mata, sem pressa, curtindo o frescor da floresta.

Tirando os sustos que algumas aves me deram dentro da mata, não tive nenhum problema e não encontrei nenhum javali. Na saída a estrada termina abruptamente. É preciso seguir pelo meio de uma lavoura de soja por oitocentos metros até encontrar o carreador que leva à Estrada do Cruzeiro. Continuei subindo rumo leste, até chegar ao Cruzeiro.

Cruzeiro

O Morro do Cruzeiro, ou Morro do Macuco, tem 600 metros de altitude. Parece, mas não é o ponto mais alto do município, que tem seu ponto culminante em seu limite oeste, com mais de 620 metros. Do Cruzeiro tem-se a mais bela vista da cidade. 

Vista de Sertanópolis desde o Cruzeiro

É outro lugar tentador. Ver a cidade lá embaixo, fácil de chegar, dá uma vontade grande de abortar o percurso. Segundo Ângelo Souza, do MTB Sertão, este é o lugar em que a maioria dos ciclistas desiste. Mas ainda não foi ali que o Passeio das Capelas me quebrou. 

Cansado, abatido, mas ainda vivo, segui até o topo, onde construíram um ponto de apoio ao ciclista. Um pedalante de Primeiro de Maio chamado Pierre faleceu em um acidente de moto e, como ele gostava de ir ao Cruzeiro, construíram um recanto em sua homenagem. Colocaram bancos, bicicletário, uma placa com os dizeres “Pierre eterno” e uma cruz. A vista é bonita, vale a parada e o descanso.

Terminou ali a longa subida que saiu do Cerne, atravessou a Mata da Madalena e chegou ao Cruzeiro. Foram 7 quilômetros com 273 metros de ganho de elevação. Até ali, a subida acumulada estava em 1.650 metros. O Wikiloc enganou-me! Faltavam trinta quilômetros. Impossível subir apenas trinta e poucos metros no restante do percurso.

Era meio dia. Tirei o capacete, as luvas, a sapatilha e deitei-me no banco. Descansei quinze minutos. 

Com sol a pino e 35º de temperatura, desci o Cruzeiro pelo norte. Minha descida foi acompanhada por atentos olhos de cavalo.

Ao chegar ao Ribeirão do Biguá fiz curva para o leste e acompanhei este curso d’água por três quilômetros. Esse é o ponto mais ao norte que a trilha chega. Segui pela Estrada do Pavão, passando pelo Córrego do Pavão e subindo até bem próximo da PR-437, rodovia que liga  Sertanópolis a Primeiro de Maio. Mas não cheguei à rodovia. Um quilômetro antes há um carreador que desce até o Ribeirão Sete Ilhas.

Desci pelo carreador e cheguei à Água das Sete Ilhas, mais conhecida como “Setilha”. O nome deve-se às várias ilhas que existiam no Rio Tibagi onde o ribeirão deságua, mas que desapareceram quando se construiu a Usina Hidrelétrica de Capivara.

Chegando no asfalto, ao passar pela casa de um sítio, dois cachorros atacaram-me. Felizmente, gritei e eles correram. Atravessei a PR-437. Do outro lado, na margem da rodovia, há um casarão de madeira que faz parte da história da música caipira.

Venda da “Setilha” (Água das Sete Ilhas)

Ali funcionava a venda que foi protagonista de um clássico sertanejo. Leonildo Sachi, o Léo Canhoto, viveu por alguns anos na “Setilha”. Ele é o autor da música Vou tomá um pingão. Na cidade, dizem ser essa vendinha a citada na canção, que já foi gravada por inúmeros cantores.

Ô, vida amargurada
Quanta dor que sinto
Nesse momento em meu coração
Ô, que saudade dela
Não aguento mais
Vou lá na vendinha
Vou tomá um pingão

Mais alguns metros e cheguei à Capela de Santo Antônio (km 84). A capela é uma das mais bem cuidadas da cidade, tem salão de festas e campo de futebol. A comunidade realiza ali, duas vezes por ano, a Quermesse da Setilha, famosa pelos seus assados.

Capela de Santo Antônio

Segundo Antônio Pissinati, na década de 1950, cerca de cem famílias italianas moravam na Setilha. A capela foi construída por um mestre de obras catarinense, ajudado pelos moradores da comunidade que se revezavam trabalhando como pedreiros. Foi inaugurada em 19 de fevereiro de 1956.

Cansados? Eu também. Faltavam quinze quilômetros. Segui pela estradinha em direção ao Rio Tibagi. A Água das Sete Ilhas deve ter sido uma comunidade muito interessante nos tempos áureos do café. As moradias e pastagens estão na beira do Ribeirão Sete Ilhas, em frente passa a estrada e do outro lado da estrada estão as roças. Esse formato deixou a comunidade unida, tanto que até hoje cuidam bem da capela e preservam a tradição da quermesse.

A estradinha levou-me por 2,5 quilômetros em direção ao Tibagi, até fazer curva para o sul. O carreador sobe em direção à Água do Tigre, passando no caminho pelo pequeno Córrego Água Azul. Devido ao cansaço e à temperatura, tive que ir parando nas sombras do caminho. Foi uma subida sofrida.

Depois de cruzar o Ribeirão do Tigre, entrei à direita na primeira bifurcação e logo cheguei à última capela do roteiro, a Capela de Nossa Senhora Aparecida (km 93).

Essa capelinha está abandonada. As paredes estão em pé, mas o telhado já cedeu, o sino ainda está firme no alto da fachada, mas o entorno virou lavoura.

Seguindo pela estrada, em direção à PR-437, passei pela frente de uma casa em que o dono construiu um recanto para curtir os finais de tarde. Colocou um gramado verdinho embaixo de uma árvore e um banco. Vendo aquilo, com aquele calorão, não resisti. Parei, joguei a bike no chão, tirei capacete, luvas, camelbak e sapatilha, deitei-me no gramado e coloquei os pés para cima, apoiados do banco.

Fiquei quieto e imóvel por alguns minutos, curtindo a sombra. Sedento, quando sentei-me para beber água, os cachorros da casa me viram e começaram a latir. Dois estavam soltos e um preso no quintal da casa. Os soltos vieram correndo, ameaçadores, e cercaram-me. Eu falei com os bichinhos: “Podem morder. Tô muito fraco pra fugir.” Deitei novamente na grama e pus os pés em cima do banco. Os cães me cheiraram e tudo mais que estava espalhado pela grama, mas pelo jeito não gostaram do que sentiram. Ficaram ali me olhando, às vezes soltavam um latido. O dono da casa até abriu a porta, e eu torci para que ele me oferecesse almoço, mas nada. Ele deve ter ficado com medo ao ver apenas meus pés para cima. Vendo que eu não iria correr, os cães ficaram comigo, sentados na grama. Devem ter ficado com dó.

Depois do bom descanso, às 13h30, parti para a arremetida final. Segui pela estradinha até a rodovia e por ela até Sertanópolis. Ao chegar ao asfalto já senti o calor aumentar, mas quando cheguei à cidade, aí sim, estava mais quente ainda. Coloque 37 graus aí na conta.

Cruzei o Ribeirão do Cerne e subi me arrastando em direção ao centro da cidade. No caminho, passei em frente a uma açaiteria e não resisti, parei. Precisava de refresco e energia. Depois, segui o caminho até o último templo do roteiro, que é a Igreja Matriz de Santa Terezinha (km 100).

Igreja Matriz de Santa Terezinha

O melhor é fazer esta trilha numa época mais fria do ano. No fim das contas, pedalei 103 quilômetros e subi 1.993 metros.

Deixo aqui meus parabéns à turma do MTB Sertão, que mapeou este roteiro. Ficou muito bom. Eu só mudaria o nome. Colocaram “passeio” só pra enganar os ciclistas desatentos. Na verdade, é o Desafio das Capelas!

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Agradeço a Héllen Toresan, Heliene Pasinato e Ivonete Pasinato que ajudaram no levantamento das informações históricas, e a Ângelo Souza, meu contato no MTB Sertão.

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