De Brasília a Pirenópolis. Em busca de novos caminhos.

Brasília, 24 de fevereiro de 2018

por Evandro Torezan

https://www.strava.com/activities/1425014917

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O livro Quem mexeu no meu queijo? (Who Moved My Cheese?, no original em inglês) foi lançado em 1998 pelo estadunidense Spencer Johnson. A obra conta a história de dois ratos e dois duendes que reagem de formas diferentes a mudanças em suas vidas. Enquanto dois personagens não mudam seu comportamento, esperando que o tempo encarregue-se de resolver seus problemas, os outros dois tomam providências e acabam numa situação melhor do que a inicial. A vida deles consiste em comer queijo, e vem daí o nome do livro.
Mas o que isso tem a ver com o meu pedal desse sábado? É que mexeram em nosso queijo! Em 2017, nós, ciclistas off-road de Brasília, presenciamos algo que nos deixou tristes: a pavimentação da GO-225. Para quem ainda não conseguiu localizar-se, tal rodovia sem calçamento, era percorrida por centenas de ciclistas off-road mensalmente, que seguiam de Brasília para Pirenópolis/GO pelo mais tradicional caminho, por estradas de chão entre Santo Antônio do Descoberto e Corumbá de Goiás. O trecho que foi pavimentado fica entre o Bar do Botinha e Corumbá. Tomaram-nos 25 km de terra.

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É o progresso, amigo! Mas esse “progresso” chegou bem antes do que poderíamos imaginar. Quem mexeu no nosso queijo foi o senador cearense Eunício Lopes de Oliveira, atual presidente do Senado e proprietário da Fazenda Santa Mônica, que é cortada pela GO-225 no trecho que foi asfaltado. Eunício movimentou seus pauzinhos, conseguiu destinar recursos da privatização da CELG para a obra e deu um jeito de ser homenageado: deram seu nome ao trecho. Essa “homenagem” causou confusão. Veja aqui: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/rodovia-que-da-acesso-a-fazenda-de-presidente-do-senado-e-asfaltada-pelo-governo-de-go-e-ganha-placa-com-o-nome-dele.ghtml
O fato é que, com a pavimentação: os ciclistas de MTB perderam seu tradicional caminho; Eunício ganhou mais alguns milhões de reais, com a valorização de suas terras; os speedeiros ganharam novo caminho para Pirenópolis, doze quilômetros mais curto do que os trajetos por asfalto anteriores; e os produtores rurais da região poderão escoar mais facilmente sua produção.

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Helvécio e Leonardo. Quarenta anos de cicloviagens.

Incomodado com o fato, meu amigo João Campos resolveu testar nova rota, buscar novas fontes de queijo. Ele mapeou uma trilha que, em parte, eu já conhecia, passando pela pitoresca Olhos D’água. E foi esse novo caminho que eu fiz com os amigos Charles Soares, Helvécio Andrade, Leonardo Xavier e Fábio Souza. Helvécio e Leonardo estavam comemorando quarenta anos da primeira cicloviagem que fizeram juntos, na qual, segundo relatos, tiveram que dormir de conchinha. Fato que poderá ser explicado pelos citados nos comentários deste post. 🙂
No sábado, às 6h da manhã, nos encontramos no Shopping Vitrinni de Águas Claras e, de lá, pedalamos até o Posto da Polícia Rodoviária Federal, na BR-060, onde encontramos Fábio.

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Seguimos pela BR-060 até estarmos a cerca de dois quilômetros do Posto Chaves, quando pegamos uma estrada de chão à direita. Esse atalho nos livra de parte do asfalto da DF-280, que liga a 060 a Santo Antônio do Descoberto. Olhos de rapina nos vigiavam, mas não eram os únicos.

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Três quilômetros depois da BR, chegamos ao acampamento Rosa de Luxemburgo, do Movimento Frente Nacional de Luta Campo e Cidade, que luta por reforma agrária e moradia. Na parte mais alta do terreno, outros olhos nos observavam: uma guarita foi montada, onde vigias ficam de prontidão.

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Mais um quilômetro e há outro acampamento, o Chico Mendes.
Esta área tem muitos sítios e chácaras. Também há áreas selvagens, chapadas de difícil acesso. No século XIX, esta bela região montanhosa, que vai da Ponte Alta, no Gama, a Santo Antônio do Descoberto, chamava-se Montes Claros. Aliás, um dos primeiros nome de Santo Antônio do Descoberto foi Santo Antônio dos Montes Claros.
Quando cruzamos o Ribeirão Samambaia, cuja ponte está interditada pois afundou devido às chuvas recentes, acessamos a DF-280 e seguimos para Santo Antônio.

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Cruzamos a cidade e paramos no Supermercado e Panificadora Xique-Xique. A galera resolveu fazer um lanche. Compraram mistos. Eu pedi café. Foi nosso primeiro descanso, com quarenta quilômetros de pedal.
Continuamos nossa jornada pela GO-225 por mais quatro quilômetros, até voltar para a terra. Até aí, tudo bem com a turma. Todos andando bem.
Apesar de as previsões para o dia serem de chuva, o dia estava lindo. O céu azul, a vegetação verde e as estradas de terra vermelha compunham o contraste de nosso caminho.

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Numa descida íngreme, Helvécio, que levava suas coisas em um bagageiro de canote, quebrou-o num solavanco mais forte. A solução foi amarrar a pequena bolsa no guidão e seguir como pudesse.
Passamos pelo Rio Areias na ponte próxima à antiga Chácara do Vilmo. A subida do vale é pesada e começou a minar as forças do pelotão.
Nosso caminho começou a mudar quando estávamos com 63 km de trilha. Geralmente, seguíamos pela direita, para chegar ao Bar do Botinha. Desta vez, fomos à esquerda. A descida é forte pelo meio do cerrado até o Córrego do Valério. Sair do córrego é difícil. A turma começou a dar sinais de cansaço. Mas a vista compensa. A região tem grandes áreas de cerrado e matas de eucalipto.

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Depois de sair do vale do Valério, a estrada alivia um pouco, passando pela entrada do Hotel Fazenda Cabugi.
Descemos para o Córrego Muquém e depois chegamos no Ribeirão Cachoeira. A subida do Cachoeira, vista de longe, é assustadora, e de perto é bem pior. Não foi a toa que Leonardo fritou.

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Eu cheguei ao trevo de Olhos D’água e fiquei esperando a turma numa sombra. Helvécio chegou com Fábio, depois Charles, e por último Leonardo, com dores no estômago.
Aguardamos para ver se ele melhorava, mas a dor não passava. Começamos a cogitar a possibilidade de ele pegar uma carona até Alexânia e voltar para Brasília. Mas Leonardo é guerreiro. Não queria desistir do pedal. Quando passou um Fiat Strada, pediu carona e seguiu de carro até Olhos D’água. Lá, decidiria o que fazer.

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O resto do pelotão seguiu pedalando para Olhos D’água, a cidade fundada em 1939, famosa pela Feira do Troca. Do trevo até a cidade são quatro quilômetros de descida. Completamos, ali, 83 km de pedal. Fomos almoçar no bom e barato Restaurante da Vilma (R$12 por pessoa, à vontade). A comida estava servida sobre o fogão à lenha e as panelas estavam impecáveis. Ponto pra Vilma! Ótima comida a preço justo. Até aí, eu já havia bebido dois litros d’água.

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Leonardo aproveitou para tomar banho de mangueira e tentar melhorar seu estado físico.
Helvécio deu um jeito em sua bolsa, que lhe atrapalhava sendo levada sobre o guidão. Arrumou um pedaço de corda e improvisou uma mochila.
Depois do almoço, reabasteci o camelbak e saímos procurando açaí para aplacar o calor, mas não encontramos. O local que vende açaí estava fechado para o almoço. Pedalamos até a igreja e acabamos indo descansar sob a sombra das árvores da praça. Leonardo tirou um cochilo mágico e acordou bem melhor.

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Saímos da cidade às 13h, pelo norte, mas logo pegamos a esquerda e seguimos para o oeste, margeando a RPPN Olhos D’água. A partir daí, só caminhos desconhecidos para mim.
O caminho foi ficando mais bonito. Paisagens com muita mata. Essa nova rota ficou muito boa. Foi a nova fonte de queijo que buscávamos.

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Passamos pelo Rio do Ouro, de águas verdes cristalinas. A vontade de dar um mergulho era grande, mas, como nossa missão ainda estava longe de terminar, seguimos. Mais à frente, passamos pelo Córrego Matutina e sua mata ciliar. Ao sair dela, tome subida. Quatro quilômetros e meio com duzentos metros de elevação. Parei no alto e fiquei esperando os amigos. Charles foi o primeiro a alcançar-me e, para minha surpresa, depois chegou Leonardo e Helvécio. O frito da vez era Fábio.
Seguimos pelo alto até entrar na fazenda Congonhas dos Alves. A estrada desceu pelo meio do cerrado do vale do Ribeirão Congonhas. Quando estávamos a poucos metros da primeira casa da fazenda, Helvécio pediu para esperarmos ele ajustar sua sapatilha. Leonardo e eu paramos, mas Charles e Fábio continuaram. O rebanho de gado leiteiro, que estava parado em frente à casa, abriu caminho para os amigos passarem, mas, quando se viram cercados por nós de um lado e Charles e Fábio do outro, assustaram-se. Algumas vacas pularam as cercas, outras correram a esmo. Formou-se uma confusão. Eu segui rápido com Leonardo, para sair do meio da bagunça, enquanto Helvécio trepou numa árvore. Felizmente, todos saíram ilesos, mas acho que o capataz da fazenda não gostou muito do ocorrido. Antes que ralhassem conosco, cruzamos as estradas da fazenda. A sede é belíssima. Também há casa de colonos e estrutura completa de ordenha.
Saindo da área edificada da propriedade, alcançamos o Ribeirão Congonhas e escalamos seu vale direito.
Nosso próximo destino era Corumbá de Goiás. O caminho mapeado por João Campos nos faria cruzar o Ribeirão Parama, chegando em Corumbá pelo Morro da Gameleira, mas, quando paramos no final de uma subida e encontramos um agricultor, ele começou a desanimar a turma. Enquanto eu conversava com ele, Helvécio chegou logo dizendo: “Vamos encurtar o caminho porque nós estamos cansados”. O agricultor sugeriu que seguíssemos para o asfalto. Eu relutei. Falei que iria pelo caminho mapeado e perguntei se alguém me seguiria. Ninguém topou. Olhando para a cara dos colegas, apenas Charles não estava mal. Segui só.
Ao chegar em uma encruzilhada, fiquei na dúvida. Logo de início teria que pular um grande portão de ferro fechado com cadeado. Quando comecei a escalar o portão, eis que dois meninos surgem caminhando próximos à cerca. Perguntei a eles como era o caminho pelo Morro da Gameleira. Eles disseram que havia muita subida e algumas cercas para pular. Pensei melhor, esperei a turma e segui com eles para o asfalto. Mas logo distanciei-me novamente do pelotão. Eles estavam fritos.
Foi quando cheguei no asfalto que me dei conta que aquele era o famigerado “asfalto novo” da GO-225. Não há como negar que a estrada ficou linda. A vista da paisagem e de Corumbá no fundo do vale é uma pintura.


A descida radical que havia ali, ligando o alto do vale ao Rio Corumbá, perdeu o encanto. Eram seis quilômetros rápidos, onde os carros não conseguiam acompanhar a velocidade das bikes. Agora, a história inverteu-se.
Chegando em Corumbá, fui direto para o Restaurante Casarão, no posto da entrada da cidade. Tomei um litro de água de coco. Que delícia! Enchi novamente o camelbak (mais dois litros de água).
Os fritos chegaram rápido. Dava dó de ver o Fábio. Ele nem sorria mais, estava quieto. Leonardo foi direto pro banheiro do posto tomar ducha, posteriormente seguido por Helvécio e eu. Charles estava bem.
No final, Helvécio, Leonardo e Fábio resolveram seguir por asfalto até Pirenópolis. Charles e eu fomos pela trilha.
A escalada de asfalto, ainda dentro da cidade, é a parte mais difícil do caminho de dezoito quilômetros entre Corumbá e Pirenópolis. Encontramos vários cavaleiros por ali. Este trecho é uma das melhores partes do pedal para Pirenópolis. Ele se mete entre as serras da Bocaina, Vendinha e do Abade e o Córrego da Bagagem. A mata é preservada e os caminho que seguimos passam por riachos, singles e estradinhas de difícil acesso.


Chegamos em Pirenópolis apenas 30 min depois da turma do asfalto. E olha que Charles veio vomitando pelo caminho, pois bebeu muita água de coco. A turma do asfalto, pelo que contaram, não parou nem pra mijar.
Meu celular deixou de gravar a trilha com 135 km. Ainda pedalamos mais seis quilômetros até o centro de Piri. Total: 141 km de trilha, mais de 2000 m de ascensão e sete litros de líquido ingerido durante o dia.
Depois de tanto sofrimento, fomos para baixo da ponte tomar banho no Rio das Almas e por volta das 19h embarcamos na van do Charles para voltar para casa.
Valeu, galera. Ótimo pedal.
Obrigado, João Campos. Ótimo caminho. Continue procurando novas fontes de queijo.

5 comentários sobre “De Brasília a Pirenópolis. Em busca de novos caminhos.

  1. Evandro, obrigado por relatar tão bem essa nossa cicloviagem, vou guardar esses momentos para o resto de minha vida!!!!
    Obrigado a todos por ter vivido esse momento.
    Até a próxima.

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      • Kkkkkk. A história de termos dormido de conchinha foi o seguinte: Quando tínhamos 15 anos, eu Leonardo, Alexandre e mais dois amigos, resolvemos ir de bike de Brasília pra uma fazenda perto de Cocalzinho, só que nos perdemos após Cocalzinho sentido Goianésia (estrada de chão), e já era umas 8 horas da noite, dai resolvemos dormir na beira da estrada, como estava muiiiiiito frio dormimos todos grudados um ao outro em forma de “conchinha”. Esse ano faz 40 anos dessa aventura.

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