Trilha da Lua Cheia – Santo Antônio do Descoberto – Pirenópolis – 4 e 5/05/2012

por Evandro Torezan

Brasília, 4 de maio de 2012

Para comemorar o primeiro aniversário do Pedáguas, decidimos proporcionar à maioria dos integrantes do grupo uma experiência inédita: pedalar de noite até Pirenópolis. Cem quilômetros de trilhas entre Santo Antônio do Descoberto e Pirenópolis, sob a luz da maior lua cheia de 2012. Em que fria me meti! Empolguei-me e dispus-me a ser o puxador oficial. Ai, ai … se arrependimento matasse …

Carlos Duarte organizou muito bem o evento, com ajuda do João Paulo (JP / Juninho), do Antônio Pedro (A.Pedro) e de mim (Evandro). Carlos divulgou o evento nas redes sociais e até numa apresentação de projeto na Uniplan, uma faculdade de Águas Claras. Pra quem esperava meia dúzia de corajosos, apareceu mais que o dobro. Veio gente de outros grupos. Fretamos até um microônibus. Tudo “na amizade”, sem fins lucrativos.

Vinte e seis aventureiros toparam encarar o pedal: Rodrigo, Valderi, Marco Aurélio, Antônio Pedro, Rogério, Mari, Eduardo, Isa, Tadeu, Gil, Reginaldo, Gilson, Deny, João, Ana Lídia, Valéria, Tell, Genival, Anderson e Wallace (DV na Trilha), Ivson, Delaine, Marcelo, JP, Sidcley e eu.

Por volta das 21h, saí de casa e fui para o posto policial da quadra 103 de Águas Claras. O estacionamento estava cheio de bikes, carros, ciclistas e acompanhantes. O ônibus chegou em seguida. Era um ônibus escolar pequeno e sem baú. Entramos nele e fomos empilhando as bikes nos bancos do fundo do ônibus. Treze bikes e ciclistas couberam dentro. O resto da turma seguiu em transporte próprio.

Depois de algumas fotos, embarcamos rumo a Santo Antônio do Descoberto. Ao passarmos pelo meio da cidade goiana, espantei-me com o movimento. Os bares espalham cadeiras pelas calçadas e até pela rua.

Paramos no posto de gasolina de sempre para esperar a turma que veio por conta própria. Depois que eles chegaram, seguimos até o ponto zero, onde chegamos por volta de 23h30. Ajudei a descarregar as bikes e a galera foi se preparando para o pedal.

Santo Antônio do Descoberto, 5 de maio de 2012

Já era meia-noite e a lua cheia iluminava-nos quando comecei a dar orientações. Avisei a todos para tomar muito cuidado com as pontes do caminho pois algumas tinham buracos. Pedi que deixassem as luzes estroboscópicas ligadas pois, no caso de alguém cair em um buraco, rio ou ribanceira, seria a única coisa que veríamos no meio da escuridão. Avisei sobre animais peçonhentos, rios que cruzaríamos e outros perigos. Pouco depois das zero horas de 5 de maio, iniciamos nossa jornada rumo a Pirenópolis. Entre os 26 ciclistas, havia até um cego, o Wallace, pedalando numa tandem (mountain bike de dois lugares) guiada pelo Anderson.

O pedal começou meio enrolado. Apesar dos gritos de “partiu”, alguns insistiam em ficar parados, conversando. Como puxador oficial, puxei o bonde e a galera seguiu-me. Depois de dois quilômetros, começou a primeira grande descida. Descemos devagar, afinal, pedalar no escuro exige atenção. Na parte final, quando a estrada estava ficando plana, ouço o chamado do João Paulo. Seu pneu havia furado. Então paramos para esperar. Foi mais de uma hora esperando o JP arrumar o pneu. Não sei o que houve realmente, mas demorou muito. Ele disse que “um pau entrou na roda”.

De volta ao pedal, mais descida, até chegarmos na travessia de um riacho. Foi passagem a vau e todos molharam os pés, inclusive os que passaram pedalando. E foi com os pés molhados que enfrentamos, no outro lado do vale, forte subida, longa e cansativa para a maioria, que já estariam dormindo a estas horas. Foi muito bonito ver tantas luzes subindo o morro.

Chegamos à estrada que vem da Cidade Eclética. Agora as coisas iriam melhorar, pelo menos em relação às subidas. Já estávamos com duas horas de pedal e ainda não tínhamos rodado nem vinte quilômetros. A partir daí, JP dividiu a cozinha comigo, e fomos revezando até o final. Quando eu parava para esperar ele passava por mim e seguia e depois trocávamos.

Reagrupamos numa vendinha, num trevo onde há placa indicando o caminho de Olhos D’água, mas seguimos para o outro lado, rumo a Aparecidinha de Loyola. É um trecho muito bonito, mas de noite, não vimos nada. Tem muita mata. No alto do morro está a cidadezinha em que não se via viva alma naquele horário. Mais uma vez reagrupamos. Quando eu cheguei, um grupo partiu, e começou a subir a longa estrada que segue rumo ao Bar do Botinha.

Quando eu recomecei a pedalar, a turma apressada já estava no final da subida, mas pegaram o caminho errado. Nossa trilha entrava à direita logo depois de Aparecidinha, mas eles seguiram em frente. Fizemos muito barulho e eles voltaram. E olha que eu avisei, no começo, para não andarem sozinhos.

A esta altura da madrugada, o sono começou a apertar e o frio veio com força. Eu cheguei a dormir pedalando em cima da bike e saí da estrada, acordando quando o pneu dianteiro bateu numa pedra e deu um solavanco na bicicleta. Foi uma longa e cansativa volta por esta área mais selvagem da trilha, com poucas fazendas e grandes áreas de cerrado. A “4×4”, uma subida íngreme e cheia de pedras soltas, acabou com a energia que restava aos ciclistas. No final dela, parada para lanche. O A.Pedro deitou no meio da estrada para descansar e tirou uma soneca.

Pouco antes das 6h da manhã o sol começou a dar as caras e o céu foi ficando claro. Parecia ser a hora mais fria da madrugada. Nesse momento, estávamos subindo o chapadão que há antes de Cocalzinho. Quando chegamos no alto, o sol nasceu no horizonte. Foi um momento mágico, em que a turma aproveitou para tirar fotos, contemplar o espetáculo ou até mesmo para dormir um pouco no chão duro da estrada, que àquela altura parecia cama macia. O calor do sol foi espantando o frio aos poucos.

Cocalzinho estava bem próximo. Descemos o chapadão e entramos na cidade ávidos por um café quentinho. Com o sol brilhando e esquentando a manhã, ficou mais fácil pedalar.

Vinte e oito quilômetros de estrada separavam-nos de Pirenópolis. Partimos para subir o Pico dos Pirineus. São oito quilômetros de subida de Cocalzinho até o ponto mais alto da estrada, em frente à sede do Parque Estadual dos Pirineus. A turma estava muito cansada, mas a passagem pelo portal do parque deu-nos novo ânimo.

Às 8h da manhã, passamos pela sede do parque. Dali pra frente o pedal ficou fácil. Há muita descida na estrada que segue até Pirenópolis. Fizemos parada no mirante onde todos tiraram fotos.

Depois do mirante, alucinantes seis quilômetros de descida, ultrapassando carros, saltando buracos e valas. Lá embaixo, parada para banho no Rio das Almas, que estava geladinho. Foi revigorante. A.Pedro disse que “era outro homem” depois do banho no rio.

Dali pra frente, só asfalto. Chegamos a Pirenópolis às 10h30 da manhã, ou seja, dez horas e 30 minutos de trilha.

O “recanto dos guerreiros” em Pirenópolis foi o Restaurante Tilapa. A turma espalhou-se pelos fundos do restaurante, ocupando redes e cadeiras. Tinha ciclista e bicicleta pra todo lado.

No final da tarde, embarcamos em nosso ônibus para voltar a Brasília.

Tiro algumas lições dessa trilha:

  • é muito arriscado organizar esse tipo de evento;
  • odeio pedalar com frio;
  • pedalar a madrugada toda nunca mais.

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