Salto do Apucaraninha – 27/01/2024

Sertanópolis, 27 de janeiro de 2024.

https://www.strava.com/activities/10642258169

Na minha época de faculdade, na Universidade Estadual de Londrina, meados da década de 1990, pensei várias vezes em ir conhecer o Salto do Apucaraninha, mas nunca consegui. Eu queria ir e voltar pedalando, saindo de Londrina, e nunca encontrei um maluco que me acompanhasse. Também havia relatos de incidentes entre os indígenas das aldeias que existiam na região e os turistas que tentavam chegar ao salto, o que tornava a empreitada ainda mais complexa. Formei-me e saí de Londrina sem conhecer o salto, mas de vez em quando me lembrava daquela linda cachoeira.

Fonte: Meu Paraná – RPC

Antes de viajar de férias para o Paraná, mapeei algumas trilhas para percorrer na minha terra natal, e incluí o Salto do Apucaraninha na lista.

Choveu muito durante os primeiros dias em que estive em Sertanópolis e até pensei que não seria possível pedalar, mas a chuva deu trégua no final de semana. Então, convidei minha irmã Héllen, que convidou seus amigos de pedal de Sertanópolis, e marcamos a trilha para o sábado. Saímos de Sertanópolis às 5h30 e seguimos de carro para Lerroville, distrito da cidade de Londrina. Às 7h chegamos à igreja católica do distrito, Paróquia de Santa Isabel da Hungria, onde deixamos os carros.

Quem topou a empreitada, além de Leidiane e Héllen, foram Herivelto e Willian. A esposa de Herivelto, Rosângela, e a filha do casal, Maria Fernanda, seguiram de carro fazendo apoio.

Willian, Héllen, Leidiane, Herivelto, Maria Fernanda, Rosângela e Evandro.

Começamos a pedalar às 7h20. Saímos da cidade pelo leste. A estrada segue na direção do Rio Tibagi passando pelo interflúvio entre os vales do Rio Apucaraninha (sul) e vários afluentes do Tibagi (norte). As lavouras de soja dominam a paisagem. 

As partes mais altas do Paraná eram forradas de Araucárias, que foram dizimadas nos dois primeiros terços do século XX. Encontramos alguns pinheiros-do-paraná pelo caminho, plantados em fila à beira da estrada.

Avistávamos, ao longe, o Pico Agudo, inconfundível farol orográfico do Norte do Paraná.

Algumas partes da estrada estão calçadas com pedras irregulares, são pequenos trechos íngremes, geralmente na borda de matas, onde provavelmente o piso não seca em épocas de chuva, sendo necessário o calçamento para os veículos superarem o liso barro que se forma no solo argiloso do Norte do Paraná.

À medida que nos aproximávamos do Rio Tibagi a paisagem ia ficando mais bonita. O vale do Ribeirão Três Bocas Mirim é uma das maravilhas que se avista da estrada, do lado esquerdo. Ele preserva boa área de mata nativa e a vista mistura-se com as paisagem do Tibagi, que está na baixada mais à frente.

Do lado direito, quem aparece de vez em quando entre as árvores no fundo dos vales é o Reservatório Fiú, no Rio Apucaraninha, que abastece a usina hidrelétrica.

Reservatório Fiú. Fonte: Copel.

Entre o Fiú e o salto, o Rio Apucaraninha passa por uma área plana. O rio dá muitas voltas e nas cheias transborda, inundando a mata ciliar, formando pequenas ilhas, lagos e curvas temporárias.

Fonte: Google Maps

Nesta baixada há uma estrada que dá acesso ao Rio Tibagi. Eu gostaria de chegar ao rio, por isso incluí um pequeno desvio no roteiro. Quando chegamos à estrada, parei para esperar a turma. Rosângela, que estava de carro, já havia passado. Herivelto teve que correr para alcançá-la. Nós ficamos esperando e quando eles voltaram, continuamos.

Apesar de dar acesso ao vale, o início dessa estradinha sobe. Escalamos e entramos num belo trecho de mata na borda do vale antes de começar a descer. No meio da mata, já descendo, havia uma porteira, que abrimos para passarem os ciclistas e o carro. Descemos muito, tanto que eu já estava quase me arrependendo de ter nos metido naquela estradinha, mas, quando saímos da mata, o horizonte se abriu e pudemos ver a paisagem. Valeu a pena! Avistávamos dali o Tibagi correndo pelo afunilado vale, emoldurado pelos morros forrados de floresta. 

O Tibagi nasce no município paranaense de Palmeira, na região dos Campos Gerais, quase no limite sul do estado, e corre para o norte, indo desaguar no Rio Paranapanema, divisa com o Estado de São Paulo, percurso de 550 quilômetros. Neste trecho, chamado Baixo Tibagi, o vale é profundo e cercado por belas serras.

Terminamos de descer e seguimos pela estrada entre pastagens.

Encontramos um rebanho de gado nelore solto que saiu correndo quando nos viu. Pedalamos até chegar a outra porteira com dizeres que deixavam claro que não deveríamos prosseguir: “Propriedade particular. Entrada proibida.” A ideia era chegar à beira do rio, mas as propriedades privadas nos privaram do acesso. Apesar da minha frustração, a turma não ficou chateada. Leidiane até gostou pois estava com medo da boiada e queria sair dali o mais rápido possível.

Rosângela manobrou o carro e voltou. Herivelto orientou-a: “Se o carro não subir, vira e vai de ré.” O carro foi na frente. Eu parei para fotografar e Willian esperou-me enquanto a turma foi subindo. Feitas as fotos, voltamos a pedalar. O carro subiu bem, quem sofreu fomos nós. Logo na primeira ladeira já precisávamos da marcha-ré sugerida pelo Herivelto, mas não tínhamos. Quando chegamos à porteira, Herivelto estava por lá e já a tinha aberto. Willian e eu passamos sem parar. Willian subiu acelerado e o motor ferveu. Ele teve que parar para a água do radiador esfriar. Eu continuei, terminei a ladeira e desci até o começo da estradinha, onde Rosângela nos esperava. Quando a turma chegou, seguimos.

Setecentos metros depois, cruzamos o Rio Apucaraninha por ponte. Bem ali, a poucos metros da ponte, a jusante, está o Salto do Apucaraninha. Na margem direita, a poucos metros do rio, há um mirante. Encostei a bicicleta na cerca e fui entrando pelo corredor de grades amarelas até avistar o rio saltando do precipício vertical. Que emoção encontrá-lo depois de tanto tempo!

O Salto do Apucaraninha, ou Salto Grande, tem 125 metros de altura, segundo a Copel, e outras fontes falam em 116 metros. A cachoeira está no trecho final do Rio Apucaraninha, a 1.800 metros de sua foz no Rio Tibagi. 

Fonte: Prefeitura de Tamarana

O Apucaraninha muda de cor durante a queda, suas águas marrons ficam brancas por alguns segundos. O contraste é nítido ao observar o poço que se forma na base da cachoeira.

O paredão de rocha que se pode observar dali, na margem esquerda, impressiona, e também o vale verde que segue até o Tibagi. No meio do vale, a monotonia verde é quebrada pelo cinza dos prédios e aparelhos da usina. Fotos históricas da construção da usina mostram que a floresta se recuperou muito bem desde aquela época.

Do outro lado da estrada está o Reservatório Apucaraninha, o segundo que compõe o esquema da usina.

Usina Hidrelétrica Apucaraninha

A Usina Hidrelétrica Apucaraninha foi construída pela Empresa Elétrica de Londrina S.A. em 1949. Na época, a área estava integralmente inserida no Município de Londrina. Em 1974, esta empresa foi incorporada pela Copel (Companhia Paranaense de Energia Elétrica). Em 1995, foi criado o Município de Tamarana, desmembrado de Londrina, sendo o Rio Apucaraninha definido como limite municipal. Então, atualmente, a usina fica em Tamarana.

Ela está parcialmente instalada na Terra Indígena Apucarana, da etnia Kaingang. Acordos entre a Copel e a comunidade indígena foram estabelecidos para compensar a comunidade pelos impactos das instalações de geração de energia em seu território. Esses acordos estabeleceram pagamentos anuais à comunidade e outras indenizações.

A usina é um PCH (Pequena Central Hidrelétrica) com capacidade instalada de 10 MW. Dois reservatórios fazem parte do projeto: o Fiú, com capacidade de armazenar 15 milhões de metros cúbicos de água, e o Apucaraninha, com capacidade de 1 milhão de metros cúbicos.

– – –

Passamos algum tempo apreciando a vista e conhecendo o lugar. Aproveitamos para lanchar.

Retomamos o pedal às 10h30. Voltamos por caminho diferente, então, continuamos pela vertente direita do vale do Apucaraninha.

Logo à frente está o ponto por onde a água sai do reservatório e segue para a usina dentro de tubulões. Eu tinha intenção de fazer outra descida, desta vez até a usina, para tentar ver o salto por baixo, mas placas no início da estrada diziam que o acesso era proibido. Então seguimos em frente.

Logo depois da ponte, começamos a encontrar indígenas circulando a pé e de moto. Estávamos na Terra Indígena Apucarana.

Terra Indígena Apucarana

A história política desse território remonta ao ano 1900, quando promulgou-se o Decreto Estadual nº 6, de 05/07/1900, assinado pelo então governador do Paraná Francisco Xavier da Silva. O decreto reservava uma área para os indígenas que estavam sendo expulsos devido à venda, pelo Estado, de terras devolutas a particulares. Assim, o decreto estabeleceu em seu artigo único: “Ficam reservadas para o estabelecimento de colônias indígenas, as terras devolutas sitas entre os rios Tibagy, Apucarana, Apucaraninha e a Serra do Apucarana, no município de Tibagy.” Este enorme quinhão de terras tinha cerca de 80 mil hectares e pertencia ao Município de Tibagy. Em 1949, o governo estadual celebrou acordo com o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a área foi reduzida, sendo demarcada em 1953, com cerca de 6 mil hectares.

Era esta área que atravessávamos. Dentro dela há quatro aldeias: Sede, Água Branca, Serrinha e Barreiro. 

– – –

A um quilômetro do salto está o portal da aldeia Sede. O movimento de motocicletas era grande. Apesar disso, ninguém abordou-nos. Só olhavam meio desconfiados, mas devem estar acostumados com a passagem de ciclistas. Há muitas casas dos dois lados da estrada.

No final da aldeia há lavouras de soja. Atualmente, os indígenas são produtores rurais.

Logo chegamos a outra aldeia, a Água Branca, menor que a Sede. Também há um portal. Tentei conversar com alguns indígenas que caminhavam pela estrada, mas como a língua mãe deles é o kaingang, não consegui me fazer entender em português.

Portal da aldeia Água Branca

Seguimos em direção à Serrinha e saímos da terra indígena. Depois da Serrinha, na primeira baixada, eu havia marcado um ponto de apoio. Entramos no Sítio Araúna. As vacas comendo no cocho davam pistas do que buscávamos: provamos e compramos queijo e doce de leite.

De volta à estrada, passamos pela Venda do Livino. Ficamos na dúvida sobre o caminho a seguir. É que a estrada estava em obras e uma placa indicava bloqueio exatamente por onde eu mapeei. Então entrei na venda e perguntei se o caminho estaria liberado. A atendente disse que sim, e então seguimos conforme o planejado.

Passamos pelo local das obras sem nenhum problema. Tinha lama nas laterais, devido às chuvas da semana, mas, como o trânsito estava liberado, os carros socaram o barro e passamos sem dificuldade.

Depois do Arroio Grande, o vale mais profundo da volta, pegamos um trecho de asfalto, mas voltamos para a terra logo depois e seguimos entre lavouras até cruzar novamente o Rio Apucaraninha num belo trecho de mata e chegar a Tamarana.

Cruzamos a cidade passando pelo centro e saindo pelo Conjunto Habitacional São Roque. Em vez de seguir pelo asfalto, escolhi uma estrada de chão. Cruzamos o Ribeirão dos Morais e fomos subindo até Lerroville, onde chegamos às 14 horas.

Pedalamos 64 quilômetros com 1.399 metros de subida.

3 comentários sobre “Salto do Apucaraninha – 27/01/2024

  1. Pingback: Pico Agudo (Ybiangi) – 31/01/2024 | Ser Pedalante

Deixar mensagem para delaineparreiragmailcom Cancelar resposta