Brasília, 26 de outubro de 2025.
Teríamos feriado na segunda-feira, antecipação do Dia do Servidor Público (28/10). Reinaldo me provocou: “Segunda-feira é feriado. Vamos marcar algum pedal bom.” Como eu já estava com meus planos sobre o Quadrilátero Cruls em mente, propus fazermos a primeira parte. Evaldo também topou a empreitada.
No domingo à tarde, Evaldo veio do Colorado, pegou Reinaldo no Guará e passou em minha casa, em Águas Claras. Pegamos a estrada, jantamos em Cocalzinho e fomos dormir na chácara do Reinaldo, o Sossego do Abade, em Pirenópolis.
Pirenópolis, 27 de outubro de 2025.
https://www.strava.com/activities/16279624428
Partimos do Sossego do Abade às 6h30 da manhã. Seguimos pelas rodovias GO-414 e GO-230, ambas asfaltadas, até Vila Propício, município que já foi distrito de Pirenópolis. Foram 115 quilômetros de viagem. Às 7h40, estacionamos em frente à Panificadora Family, onde tomamos nosso desjejum. Depois, seguimos até a Igreja de Santo Antônio de Pádua, onde deixamos o carro e nos preparamos para a trilha.

Às 9 horas, saímos da cidade pelo norte, pelo asfalto, dois quilômetros pela GO-251, depois, mais dez quilômetros pela GO-230. Dali, já avistávamos as belas paisagens que encontraríamos durante o dia, com grandes buritizais, cada vez mais raros no explorado Planalto Central.

Antes de cruzarmos o Ribeirão Fidalgo, escorrendo no vale em frente, entramos à esquerda. A região está tomada por canaviais mas o vale do Fidalgo tem em suas margens belas áreas florestadas. Encontramos também seringais e muitas represas usadas para irrigação.
A primeira barragem que passamos está no Córrego Salobro e tem até nome: Lago Ipê.

Logo depois da barragem, o córrego deságua no Fidalgo. Assim, deixamos os canaviais e entramos na floresta. É um belo trecho de mata. Logo à frente, outra represa, esta num pequeno córrego.

Atravessamos esta mata e, na saída, outra represa no Córrego Manoel Leite (ou Manoel Leitão).
Ao sairmos da mata, já avistamos o morro onde está o vértice. Mais um pouco pela estrada e logo chegamos ao carreador que nos guiaria ao morro pelo meio do recém-colhido canavial.

Subimos até chegar à borda da mata. A estrada foi contornando o morro, acompanhando a mata. Fui observando a aproximação do waypoint do vértice. Quando a mata acabou, encontramos um enorme jatobazeiro solitário. Estávamos a quatrocentos metros do vértice em linha reta.
Pulamos uma cerca e escondemos as bikes no mato. Do lado de dentro da cerca há uma pastagem. Começamos o exploratório. Caminhamos até a borda da mata onde encontramos uma trilha que entrava por ela. A mata do morro é bem fácil de atravessar. Inicialmente, seguimos a trilha, mas, depois de certo ponto, passei a guiar-me pelo GPS caminhando em direção ao waypoint. De repente, vi a torre piramidal branca na sombra logo à frente. Encontramos o vértice! Do jatobazeiro até o vértice foram seiscentos metros de caminhada.


O vértice noroeste
No local há duas pequenas torres brancas de metal, com cerca de um metro de altura. Elas estão ali para facilitar o encontro do vértice e promover sua proteção. No marco de ferro fundido estão as inscrições: SERVIÇO GEOGRÁFICO DO EXÉRCITO – PROTEGIDO PELA LEI – CRULS VERT. NW – SAT – 1992.
Enquanto líamos os escritos nos marcos e curtíamos nosso achado, senti uma agulhada no pescoço. Identifiquei imediatamente o atacante: um marimbondo. Os marimbondos tomaram posse do esquecido marco e fizeram dele sua morada. Nos afastamos, buscando um lugar seguro. Evaldo e eu fomos atacados, Reinaldo não. Eu levei ferroadas no queixo, no pescoço e no peito. Entre outras, Evaldo levou uma na pálpebra, o que fez seu olho inchar.
Depois que os insetos se acalmaram, aproximei-me novamente para fotografar, mas logo fui atacado novamente e tivemos que deixar o local.
Caminhamos de volta até nossas bicicletas. Aproveitamos para comer alguns jatobás.
Fizemos o caminho de volta até a estrada e seguimos para o noroeste.
Caverna Garganta ou Samambaia
À nossa frente estava uma série de morros de aparência cárstica. Do lado direito da estrada, a Serra da Barroca e do lado esquerdo, o Morro Tamanduá. Em 3,5 quilômetros, chegamos ao desvio. Deixamos a estrada e contornamos o Morro Tamanduá por trezentos metros, até encontrarmos uma placa indicando a “Caverna Garganta (Samambaia)”.

Quem chega ali em cima, não tem noção nenhuma da maravilha que irá encontrar. Descemos pela escadaria de concreto, corrimão de ferro, e logo alcançamos a boca da caverna, pequena e escondida no fundo de um vale, uma verdadeira garganta, justificando o nome da caverna. Me perguntei: “Não foi isso que vi nas fotos. Será que eram de outro lugar?”

Mas Evaldo, nosso pseudo-espeleólogo de plantão, não se deu por satisfeito. Entrou no primeiro buraco que encontrou e ficou gritando lá de dentro: “Tem uma escada aqui. Tem luz lá embaixo.” Ele foi entrando e nós fomos atrás, nos espremendo pelas entranhas da terra. E não é que tinha luz, mesmo! Depois da primeira escada, vimos onde estávamos nos metendo: abriu-se em nossa frente um enorme salão iluminado pelo vão de uma dolina. Embaixo do vão, na área atingida pela luz do sol, samambaias decoram o canteiro central do anfiteatro natural justificando o outro nome da caverna.

Fomos descendo, passamos por outra escada e depois, escalando e escorregando pelas rochas, chegamos ao chão onde pudemos caminhar.

Enquanto os amigos estavam na frente e já exploravam outras partes da caverna, eu, ainda perto da área menos iluminada, estava filmando-os, tentando registrar o tamanho daquele lugar em comparação a eles, quando ouvi um barulho estranho atrás de mim. Pensei que fosse um urubu tentando voar, com aquele barulho oco de lentas batidas de asas, mas quando olhei, vi um bicho preto correndo pelo chão. Não era um urubu, era outro animal, uma irara, ou papa-mel. O som que ouvi era sua corrida pesada e desengonçada descendo o barranco para procurar lugar mais seguro para se proteger do maior predador da terra: o homem. Se fosse uma onça, já era! O predador ciclista aqui seria predado.
Exploramos a caverna, observando o fantástico salão e sua luminosa dolina. Que lugar incrível!

Na borda da dolina, bem no alto, sobre nossas cabeças, havia uma enorme colméia. O papa-mel não estava ali à toa. Se havia aquela lá em cima, tão longe de suas garras, poderiam haver outras. Antes que Evaldo tentasse adentrar em outra fenda, convoquei os amigos para sair dali. Havia muito a pedalar e eu já estava satisfeito com as ferroadas de marimbondo, não queria experimentar as de abelhas. Saímos da caverna pelo mesmo caminho, pelas escadas, deixando nosso amigo papa-mel sozinho em sua casa monumental.
Continuamos nossa trilha pelos canaviais sem fim. O calor era enorme. Não passava um ventinho por aquele deserto verde e não havia nenhuma árvore na beira da estrada. Triste fim de um cerrado edênico.

Além do calor, outro problema começou a nos atrasar. O pneu traseiro da bike de Reinaldo começou a murchar. A válvula já havia se mostrado problemática pela manhã, quando, ao encher, soltou o miolo. O pneu ia perdendo pressão aos poucos e tivemos que parar várias vezes para encher. Ficamos nesse pare-e-siga por horas, o que consumiu nossa água.
Reinaldo e Evaldo, cansados, estavam procurando água até nas malcheirosas piscinas de vinhoto que encontrávamos pelo caminho. Queriam parar para lanchar, mas eu sugeri que seguíssemos até o Balneários do Rio dos Patos, que já estava próximo.

Às 13 horas chegamos ao Rio dos Patos e entramos no balneário, que tem um bar e estava aberto, apesar de ser segunda-feira. Compramos a melhor coca-cola possível, levemente congelada, que aliviou nossa sede. Também aproveitamos para encher nossos reservatórios de água, já secando. Quando nos preparávamos para tomar um banho no rio, o dono nos mandou embora, revelando que estava apenas de passagem. Demos sorte!
Partimos, então, para um trecho mais interessante. Atravessamos o Rio dos Patos pela rodovia GO-251, seguimos por ela por pouco mais de um quilômetro e entramos à direita. No início teve mais um pouco de canavial, mas depois que cruzamos o Ribeirão dos Paulas, passamos a encontrar mais pastagens. Logo depois, paramos numa sombra para Reinaldo trocar a câmara de ar de seu pneu, que estava nos atrasando muito.
Com a câmara trocada, seguimos. Nossa rota passou a acompanhar o Córrego Limoeiro pela margem esquerda, e assim foi até sua cabeceira, quase na rodovia GO-473. Fomos cruzando propriedades rurais, sempre passando por porteiras e colchetes, cruzando pastos e mangueirões próximos às sedes. Felizmente, nenhum problema com cachorros ou donos bravos.
Alcançamos a GO-473 num trecho sem asfalto. Seguimos à direita, sentido sudoeste, até nosso último destino notável do dia: o Lago Azul.
Lago Azul
Foram 2,3 quilômetros pela rodovia até a entrada da fazenda e mais 500 metros até a lanchonete.
Quando chegamos, começou a chuviscar. Pelo calor do dia, imaginei que viria um temporal, mas a chuvinha foi bem tranquila. Sem almoço até então, pedimos uma porção de batata-frita para enganar o estômago e esperar a chuva passar.
Quando parou de chover, desci ao lago para conhecê-lo. O Lago Azul é formado por uma poderosa nascente subterrânea que verte cerca de 2 mil litros de água por segundo.

Antes de existir a represa, a água corria diretamente para o Rio dos Patos, pelo sul. O proprietário da área resolveu, então, construir uma barragem que criou o lago, desviando sua vazante para o norte. O calcário abundante no solo proporciona a transparência da água e a areia branca do fundo ressalta sua cor azul. No centro, onde está a nascente, o lago tem sete metros de profundidade, mas, na maior parte, dá pé. É incrível ver a quantidade de água que surge das entranhas da terra.

No final do dia, seguimos de volta para Vila Propício. Mais dez quilômetros pela GO-473. Terminamos o pedal às 16h40.
Nesta primeira parte da nossa visita aos vértices do Quadrilátero Cruls, tivemos lindas paisagens, impressionantes monumentos naturais e o histórico vértice. Que venham os próximos.










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Show de pedal e show de história !!!
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