A Casa de Pedra e o Ônibus Fantasma – 06/10/2018

Brasília, 6 de outubro de 2018

por Evandro Torezan

https://www.strava.com/activities/1888307312

Casa isolada, com paredes de pedra, encravada nas franzidas Serras do Maranhão. Foi isso que fui conhecer neste sábado, véspera de eleição majoritária. Anos antes, eu havia estudado o entorno desta casa pelo Google Maps, mas nunca pensei em ir visitá-la pois a belíssima Trilha do Alto Delírio, na mesma região, nos atraía como ímã. O pensamento era: “Se vamos para aquele lugar distante, faremos a Delírio!” Contudo, quando o antigo proprietário da área onde se desenvolve a Alto Delírio morreu, os herdeiros resolveram proibir a passagem por suas terras. A mais bela trilha do Distrito Federal acabou nesse episódio e a Casa de Pedra herdou seu espólio ciclístico, passando a ser o destino preferido dos mountain bikers que visitam a região.

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O ponto de partida da trilha, convocada pelo amigo Leonardo Coutinho, foi o Parque dos Jequitibás, em Sobradinho. Cheguei antes das 6h30 e comi com calma minha marmita de batata-doce e frango. Logo chegou Leonardo e, por último, Hércules.

Saímos do parque às 7h, cruzamos o Córrego Sobradinho e por estradas de chão chegamos à Comunidade Lobeiral. Entramos à direita e seguimos para a Fazenda Mugy. Cruzamos seus deliciosos singles para chegar à rodovia DF-205.

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Pelo asfalto, pedalamos 3,5km antes de voltar para a trilha. Logo que entrei na estrada de chão que segue para o Rio Maranhão, lembrei-me da primeira vez que passei ali, há quinze anos. Acabara de mudar-me para Brasília. Eu pertencia ao grupo que diz “em Brasília é tudo plano” e logo numa das primeiras trilhas pelo DF fui apresentado às montanhas do Planalto Central.

Chegamos ao Rio Maranhão. A água limpinha convidava para um mergulho. Aceitamos o gentil convite comprometendo-nos com a água de passar por lá na volta. Enquanto eu fotografava o rio, passou por mim alguém que não me parecia estranho. Guardei a câmera e acelerei para descobrir quem seria. Bom, não era nenhum de meus amigos, mas era um rosto conhecido. Na noite anterior, procurando no Google o tracklog da trilha, achei a seguinte matéria: “Em dia de calor recorde, repórter faz trilha considerada uma das mais difíceis do DF”. Li a reportagem de Fábio Amato, repórter-ciclista da Globo/DF, preparando-me psicologicamente para o que enfrentaria. Coincidentemente, foi Fábio que passou por mim.

O primeiro trecho de subida da serra é um absurdo. Pouco mais de 1,5km com 10% de inclinação média. Subi conversando com Fábio esse primeiro trecho. Quando parei para esperar meus amigos, ele seguiu. Do Maranhão até o local mais alto são quase oito quilômetros, 6% de inclinação média.

Essa região serrana, na margem direita do Rio Maranhão, é conhecida como Serras do Maranhão. As centenas de riachos que nascem no fundo dos vales e nas grotas juntam-se para alimentar o Maranhão com águas que compõe a Bacia Amazônica e irão desaguar no Oceano Atlântico, na Ilha de Marajó. É uma região de difícil acesso, com muita vida selvagem. Registros de ocorrência de onças são corriqueiros. As paisagens são fantásticas. Matas nas áreas baixas, campos sujos e limpos nos morros.

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No ponto em que, no passado, entrávamos para a Trilha do Alto Delírio, agora há porteira fechada, com placa avisando: entrada proibida. Que pena!

Fábio, que havia parado para fotografar, passou por nós ali no alto e desceu rápido.

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Descemos também para a Casa de Pedra. Encontramos alguns ciclistas fazendo o caminho de volta, sofrendo na subida. Do alto até a casa são 2,5km percorridos rapidamente. A casa foi construída usando o material mais abundante na área: pedras. Por que levar tijolos até lá se havia tantas pedras disponíveis? É casa grande, rústica. Portas de vidro mostram que foi construída para ser sede da fazenda.

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O homem que mora na casa vende algumas bebidas, sem gelo pois não há energia elétrica por lá.

Havia mais um ponto que eu desejava conhecer: o Ônibus Fantasma. Outros ciclistas, que chegaram antes de nós, discutiam se iriam até lá. Eu iria, com certeza, mesmo avisado de que o percurso era pesado. Tomei uma coca-cola e sem perder tempo, parti. Meus companheiros de pedal ficaram esperando-me na casa.

O começo da trilha até o Ônibus Fantasma é tranquilo. Depois de subir um pouco, desci até o Córrego Piancó, que estava com pouca água, mas na travessia da estrada formou-se pequeno lago, cheio de girinos.

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Depois do Piancó, acabou a brincadeira. Foram cerca de três quilômetros de empurra bike. Eu pensei que iria fritar. Pensei em desistir. As pernas estavam bambeando de tanto esforço. Pelo menos a vista a partir do alto compensa.

Quando no final de um ladeira, olhei para a esquerda e vi um ônibus cinza parado numa clareira, nem acreditei que tinha chegado. Ele foi colocado ali pelo proprietário da área. Grileiros ameaçavam invadir a fazenda e, além de servir de refúgio para os seguranças contratados, o ônibus funciona como marco de posse. É um ônibus antigo, pneus murchos, com ar condicionado instalado no teto. Chamam-no de Ônibus Fantasma. Não sei se realmente é, mas quando ouvi barulhos dentro dele, e nenhum sinal de gente por perto, peguei minha bike e parti.

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Para chegar ao ônibus levei pouco mais de uma hora. Para voltar, menos de trinta minutos. O cheiro de pastilha de freio queimada revelou a inclinação forte. Quando passei pelo riacho, não resisti. Tomei banho refrescante, dividindo a água com centenas de girinos.

De volta à Casa de Pedra às 11h30, comi uma latinha de atum, tomei outra coca-cola, abasteci meu camelbak que já estava seco e descansei alguns minutos.

Meio dia. Acordei meus amigos, que dormiram de tanto esperar-me, e partimos serra acima. Teve mais empurra bike. A saída da casa é íngreme. Pelo caminho, atento às plantas a minha volta, fui encontrando algumas frutas. Outubro é ótimo mês para explorar o cerrado pois ele está cheio de frutas: cajuzinho, cagaita, bacupari. As mangabas ainda estavam verdes.

Aos poucos, minhas pernas ressuscitaram. A energia do atum com coca-cola fluiu pelo corpo. Leonardo já pensava em pedir resgate, seguido na intenção por Hércules. Passado o alto, eu só pensava em chegar ao Rio Maranhão e aliviar o calor. Segui sem parar. Em trinta minutos cheguei ao rio. Pulei a cerca, caminhei alguns metros pela margem, deixei a bike encostada numa árvore e entrei no rio. Apesar de largo, o Maranhão é bem raso nesse ponto. Sentei-me no meio do leito e fiquei observando a ponte para não deixar que os amigos passassem. Dez minutos depois chegou Hércules, que pelo jeito rogou a Zeus para recuperar suas forças, acompanhado por Leonardo. Eles juntaram-se a mim para curtir as águas do Maranhão.

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Terminado o banho, voltamos ao pedal. Subimos o vale da margem esquerda do Maranhão, que nem de longe compara-se à margem direita, até o asfalto da DF-205. Minha água acabou novamente quando chegamos numa pedreira que tem, logo na entrada, bebedouro disponível para quem precisar. Enchi o camelbak.

Desde a saída do rio, eu só pensava na Oito e Meio, subida difícil que enfrentaríamos para voltar a Sobradinho, mas Hércules tinha uma carta na manga. Sugeriu que, em vez de subir pela Oito e Meio, seguíssemos pela Trilha Três Riachos, sugestão imediatamente aceita. Seguimos pelo asfalto por cerca de nove quilômetros até a entrada da trilha. A Trilha Três Riachos segue pelo meio de morros, acompanhando o Córrego Sansão que é cruzado várias vezes, sendo que em duas delas, a passagem é a vau.

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Apesar de menos íngreme, a Três Riachos não é tão fácil. Percorremos sete quilômetros com inclinação média de 4%, bem mais fácil que a Oito e Meio.

No final da Três Riachos, quando chegamos ao asfalto, loja de açaí chamou nossa atenção. Paramos. Infelizmente não tinha açaí, mas aplacamos o calor tomando picolés.

Faltava pouco. Atravessamos um condomínio e, num sprint final, deixei os amigos pra trás seguindo rápido até o Parque dos Jequitibás.

Trilha dura para um sábado tão quente. Foram 79km, com 2032m de ascensão, em quase sete horas de trilha.

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