Cocalzinho de Goiás – Pirenópolis – Aniversário de 6 anos do Tombos do Cerrado – 27/04/2019

Brasília, 27 de abril de 2019

por Evandro Torezan

https://www.strava.com/activities/2323118206

A trilha comemorativa do aniversário de seis anos do Tombos do Cerrado começou em Cocalzinho de Goiás. A turma reuniu-se em Águas Claras às 5h da manhã para embarcar na van do Fofão. Lá estavam Wilmar Castro (presidente do grupo), Levi, Chico, Leonardo Coutinho, Júnior Caveira, Júnior Porra, Luciano Vicari, Alisson Carvalho, Leonardo Marques, Nilton Japa, Fernando Ferreira, Sérgio Reis, Magno e eu. Com essa turma, a diversão é garantida. Zoeira do início ao fim.

Viajamos até o Posto Serra, no entroncamento da BR-070 e BR-414, há poucos quilômetros do perímetro urbano de Cocalzinho. Quando chegamos, alguns de nossos amigos que foram de carro já estavam por lá: Dinho, Júlio Rocha, Rosenilton P-Sul e Daniel Carnielo. Enquanto alguns tomavam café no restaurante do posto, Silvio Sá e Fabrício Gomes chegaram de carro com as bikes num suporte traseiro. Silvio chegou e foi logo para o restaurante do posto tomar café. Só quando voltou ele percebeu que o pneu dianteiro da sua bike havia derretido pois ficou bem na frente do escapamento do carro.

A trilha começou às 7h40. Atravessamos a BR e seguimos margeando um eucaliptal que há do outro lado da pista, por estradas de chão. Quando parei para ajudar um amigo desguarnecido de protetor solar, passou por nós uma cachorrinha acompanhando os colegas ciclistas. Marrom, porte médio e muito simpática, a bichinha passou acelerada. Vou chamá-la de Cocal para facilitar a narrativa. Brinquei com a Cocal, que me olhou feliz e passou correndo.

Acelerei para alcançar os amigos que estavam na frente. Passei por Cocal mas no final de uma subida, Cocal passou por mim. Cachorrinha bruta! Deixou quase todos para trás. Cocal é elite!

A trilha seguiu entre fazendas. Chegamos ao topo da Serra do Bicame com quase dez quilômetros de pedal. Dali, descemos no sentido de Cocalzinho. O Pico dos Pireneus estava à nossa frente, marcando a paisagem ao longe.

Pico dos Pirineus

Numa curva fechada, onde há porteira e cerca elétrica, saímos do estradão e pegamos trilha no cerrado, trilha single, cheia de pedregulhos. Alguns tombos, fazendo juz ao nome do grupo, foram protagonizados pelos colegas. Dizem que o tombo do Japa foi espetacular!

O single levou-nos à borda sul da serra. Lá do alto tem-se belíssima vista do vale do Ribeirão Rasgão.

Borda sul da Serra do Bicame. Vale do Ribeirão Rasgão na parte de baixo.

A descida da serra é um pouco complicada. É por trilha estreita, toda erodida. Cocal desceu rápido com o pelotão dianteiro. Eu fiquei no alto, apreciando a vista e observando os amigos ciclistas esgueirando-se pela borda da serra para chegar ao fundo do vale.

A descida da serra

Minha intenção era esperar todos passarem e seguir com a “cozinha”, mas como demoraram a chegar. Desci. É um empurra-bike escorregadio morro abaixo. De baixo, pude observar alguns amigos descendo o rasgo na parede. A trilha estava prateada, refletindo a luz do sol na rocha úmida.

Embaixo, no vale, seguimos por trilhas single no pasto até chegar na estrada do Hotel Fazenda Cabanas dos Pirineus. A estrada margeia a belíssima represa do hotel até sair da propriedade.

Represa do Hotel Fazenda Cabana dos Pirineus

Segui rápido até o asfalto, onde encontrei os amigos dando água para Cocal. Ela estava com muita sede.

Cruzamos o Rio Corumbá pela ponte da BR-414. Logo depois, nossa van nos esperava com Gatorade e cerveja geladinhos. Até aí rodamos vinte quilômetros. Enquanto descansávamos, Cocal passou por nós e não quis parar. Cachorrinha obstinada! Chamei-a pra ver se ela parava e, quem sabe, seguisse com Fofão na van, mas ela só deu uma olhadinha de rabo de olho e continuou. Eu acho que ela gostou do Alisson. Silvio Sá apareceu pedalando quando estávamos na van. Ele conseguiu comprar um pneu usado na bicicletaria de Cocalzinho.

A partir daí, nosso caminho até Pirenópolis seria pelo Caminho de Cora Coralina. Para quem ainda não fez, saiba que esse trecho é o mais bonito de todo o Caminho de Cora.

Depois de alguns quilômetros por estradas de chão, cruzamos o Córrego Capitão do Mato e, na frente de um centro de recuperação de usuários de droga, atravessamos uma cerca. Entramos no Parque Estadual dos Pirineus.

Cocal continuava firme no encalço de Alisson. Veja:

Cachorrinha Cocal correndo atŕas do Alisson. Vídeo de Wilmar Castro.

Aos 26 km começou o single que atravessa o parque pelo sul. Essa trilha single é fantástica. O começo é travado, ao atravessar um campo rupestre. O solo tem pedregulhos e a todo momento é preciso descer da bicicleta.

Ao passar por um refúgio rochoso, a turma da dianteira fez foto com Cocal. Ela estava faceira com seus amigos de trilha.

Mais alguns metros de terreno difícil e a trilha ficou mais fácil. Dali pra frente, muita areia e lama no singletrack.

Ao sul, o Morro Cabeludo destaca-se na paisagem. Várias nascentes brotam daquele terreno arenoso formando belos buritizais e abastecendo o Córrego Capitão do Mato.

Morro Cabeludo

Há duas cachoeiras nesse caminho. A primeira, uma série de pequenos degraus, é no Córrego da Serra, ainda na área dos singles. Água puríssima que alimenta pequeno buritizal. Curta a paisagem.

Saindo dos singles, passando por algumas estradas de chão e depois entrando em outro trecho de singles, chega-se à Cachoeira Sonrisal. São várias pequenas quedas com várias piscinas naturais. Algumas parecem ser de borda infinita.

Leonardo e Fernando atravessando o Córrego Capitão do Mato na Cachoeira do Sonrisal

Aproveitamos para curtir as geladas águas do Córrego Capitão do Mato, que forma o Sonrisal.

Júlio curtindo as águas do Sonrisal.

Foi aí que uma turma maluca nos alcançou. Fernando DJ, Jefferson, João e Fabinho saíram às 2h da madrugada de Brasília, para nos alcançar em Cocalzinho, mas acabaram atrasando. Mesmo assim, nos alcançaram no Sonrisal. Eles estavam bem cansados pois nem dormiram. Brutalidade pura! Praticamente não pararam na cachoeira, só o Fernando DJ que mergulhou num poço, com celular no bolso.

Saindo do Sonrisal, tem um trecho de lama e areia esquisito. Na última vez que passou por ali, nosso amigo Nilton Japa afundou numa poça de lama até a coxa e pediu socorro para sair. Como ninguém veio ajudá-lo, teve que se virar sozinho. Dessa vez, havia um desvio no lugar. Pelo jeito, outras pessoas afundaram lá.

Cheguei à estrada de chão na saída do Sonrisal. Fiquei esperando os amigos, mas como demoraram, resolvi acelerar.

Entrei no vale do Rio das Almas. Há muita floresta nessa área e a trilha segue por estradas de chão em meio à mata. Cruzei o Rio das Almas duas vezes a vau. Antes de chegar à ponte sobre o Córrego Barriguda alcancei os brutos que vieram pedalando de Brasília. Eles estavam quase fritos.

Chegamos na estrada de acesso à Cachoeira do Abade. Atravessamos a estrada e do outro lado escalamos o morro beirando uma cerca. Até tentei subir pedalando, e fui até bem, mas um senhor vinha descendo com um tronco nas costas e tivemos que parar para ele passar. Dali pra frente foi empurra-bike.

Depois de pular algumas cercas no alto, começou a descida da serra. Ao contrário da estrada que cruza o parque, que desce a serra pelo estradão, pelo Caminho de Cora a descida é por trilhas single. São trechos técnicos fantásticos em meio ao cerrado, com belíssimas vistas.

Fernando DJ no trecho técnico da descida da serra

Fomos descendo o vale do Barriguda até passar por algumas pedreiras. Quando entramos no Refúgio Avalon, ao passar por uma estrada erodida com enormes pedras soltas, levei um belo tombo. O pneu dianteiro calçou numa pedra e tomei o famoso tombo-escorpião, em que se cai para a frente, por cima do guidão, e a bike cai por cima. Felizmente, consegui apoiar-me nas pedras com as mãos e, apesar de espetaculoso, o tombo não causou danos nem na bicicleta nem em mim.

Chegamos novamente ao Rio das Almas. Quem chega ali e não conhece o lugar pode até pensar que errou o caminho. É que a trilha termina no rio e do outro lado parece não haver passagem. Deixei a turma do Jefferson, DJ e João ali, na beira do rio. Eles pararam para comer. Atravessei o rio e escalei o morro que há do outro lado. No alto encontrei Levi, Wilmar e Alisson.

Saímos do Recanto Avalon e chegamos no asfalto da Rodovia Parque dos Pirineus. Cocal foi vista pela última vez ali. Que pena! Provavelmente, ganharia um lar pois havia vários ciclistas pretendendo adotá-la.

Dali até a cidade foi bem rápido. Guardamos as bikes na van e fomos para a pousada que nos aluga chuveiros. Foram 48 km com 869 m de elevação.

Quando saia da pousada, já de banho tomado, encontrei Fernando Ferreira. Ele foi um dos primeiros a chegar. Sorrindo de orelha a orelha e comentou seu desempenho: “Fui muito bem hoje, estava me sentindo bem e vim no meu ritmo, sem parar.”

Alguns não se conformaram com o desempenho de Fernando. Teve gente que até alegou que ele teria cortado caminho. Sérgio Reis pediu pediu o VAR, mas o juiz negou. É assim mesmo, tem dia que pedalar parece fácil, geralmente acontece depois que você treina. 🙂

Cachorrinha Cocal.

Que me desculpem os que chegaram na frente, mas meus parabéns vai aos que chegaram por último, pois foram os que mais curtiram a trilha. Desculpe aí, Fernando, sei que você treinou forte, mas eu sou fã é da turma da cozinha.

Segue abaixo relato da trilha, quase fábula, sob outro ponto de vista. 😉


Acordei cedo. Já tinha conseguido uns petiscos com os clientes do restaurante. Sempre me dão comida por lá. Eu moro no posto de gasolina. Sem planos para o dia, descansava embaixo das árvores.

Logo cedo chegaram meus amigos ciclistas numa van. Fiquei de olho pra ver o tipo. Não gosto de qualquer um. Primeiro desceu um magrinho. Pensei comigo: “Xiiii! Elite. Tô fora!” Mas daí, da frente da van, desceu um gordinho de camisa amarela. Vi que a turma era das boas! Tinha vários gordinhos. Vou me dar bem! Partiu, trilha!

Fiquei ali de olho. Logo chegou um carro vermelho. Mais dois gordinhos. Era meu dia de sorte! Mas nem tanto. O pneu da bike de um dos gordinhos estourou pois ele deixou o pneu na frente do escapamento. Que burro, dá zero pra ele!

A turma não me deu atenção, mas ciclista de MTB é o tipo de humano que eu mais gosto. Eles são amigos, me dão água e comida. Não tem erro. É só correr atrás e colocar a língua pra fora que me dão água. Às vezes me dão salame, queijo, gel, paçoca. Batata eu não gosto pois me dá gases.

Quando eles partiram, corri atrás. Finalmente eles me viram e começaram a falar comigo, me incentivando a acompanhá-los. Tamo junto, galera! Mas tive que andar devagar pois tinha muito pau-de-rato.

Pelas fazendas, encontrei vários bichos, como vacas, porcos e cachorros. Meus amigos caninos gostam de correr atrás das bikes, latindo, como se fossem conseguir pegar alguém. Inocentes! Tem uns que são bravos e tentaram me pegar. Tive que correr e deixei os humanos pra trás. Como choveu há poucos dias, havia poças d’água pela estrada e fui esfriando minhas patinhas quando passava por elas. Rolava na água e na lama. Que alegria!

Esperei a turma no asfalto. Tava bem quente, mas eles me deram água. Foi aí que começaram com uma conversa de me adotar, me levar pra casa, me colocar dentro da van, “tadinha” pra cá, “pobrezinha” pra lá. Sempre a mesma história! Falaram que iriam me tirar daquela vida. São uns sem noção! Minha vida é boa demais. Quem disse que eu quero mudar de vida? Só falta quererem me castrar pra “melhorar minha saúde”.

Eles pararam na van logo depois. Um deles me chamou, mas fiquei com medo de ser presa e saí correndo. Alcancei a turma da frente e fui com eles. Entramos no parque. Lá é bom demais. Tem vários rios pra me refrescar.

Até no colo me pegaram, fizeram carinho, fizeram selfie comigo.

Essa turma era das boas. Pararam numa cachoeira. Fiquei lá me refrescando e quando me dei conta, o meu gordinho preferido já tinha saído. Corri atrás dele. Fomos juntos um bom tempo. O cheiro que saía da mochila dele era incrível, e ele não me decepcionou: consegui um bom lanche. Mas ele começou de novo com aquela conversa de me levar pra casa. Daí vi que estava correndo risco de ser sequestrada. Esses humanos pensam que são o centro do universo. Pense bem. Eu faço trilha todo sábado e domingo, como petiscos, nado nos rios do caminho, faço muitas amizades. E esse povo querendo me levar pra morar em apartamento na cidade! Tô fora! Eu sou bicho solto! Passear na praça e comer ração não é pra mim.

Quando nós chegamos perto da cidade, preferi não arriscar. Pelo jeito não iria ganhar mais nada pra comer. Além disso, ainda era cedo. Ainda daria tempo de pegar o grupo que pedala à tarde. Voltei pelo estradão do parque pra chegar mais rápido. Eu sou roots! Comigo não tem esse negócio de voltar de van.

Cocal, a cachorrinha

2 comentários sobre “Cocalzinho de Goiás – Pirenópolis – Aniversário de 6 anos do Tombos do Cerrado – 27/04/2019

  1. Muito bom Evandro! Se me permite, faltou a outra turma da cozinha que se dividiu com Fabiano que voltou sozinho para pegar o carro em cocalzinho, Júnior Porra e Magno foram para o pico dos Pirineus e eu (Leonardo Marques) com o Silvio fazendo o trajeto que vocês fizeram. No caminho, dois pneus furados, encontramos uma amiga do Sílvio que tentamos acompanhar, mas tivemos outro pneu furado. Já chegando em Pirenópolis com aquela sede e fome vimos algo que parecia uma igreja, que mais de perto na miragem era uma cervejaria que inaugurava naquele dia, tiramos foto de fora, mas chegando na entrada a decepção, só para convidados, disse o porteiro. Kkkk Seguimos para o centro de encontro com a turma e sanamos nosso problema! Tim tim

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