Pedalando em Nova Iorque – Central Park e Brooklyn Bridge

Neste ano realizei o sonho de conhecer Nova Iorque. Bom, pra falar a verdade, não era assim um sonho tão desejado. Como você já deve ter percebido, sou ciclista off-road e meu passeio favorito não é por cidades. Mas quem nunca quis conhecer aquela metrópole que serve de cenário para oito de cada dez filmes que passam no cinema ou na TV? Quando surgiu uma oportunidade, abracei-a e lá fui eu, levando a família junto.

Como bom ciclista, não poderia deixar de pedalar por lá. As primeiras células reservadas em minha planilha de planejamento eram para isso.

Por incrível que pareça, naquele mar de carros do trânsito de Nova Iorque, há muitas bicicletas circulando. O filme “Perigo por Encomenda” (Premium Rush) romantiza a rotina de ciclistas-entregadores e retrata o movimento das bicicletas pela cidade. 

Apesar da imagem de trânsito caótico, o ciclista é muito respeitado nos EUA. Fiquei até constrangido em algumas situações, imaginando estar atrapalhando o trânsito. Eu ia pedalando pela rua e percebia que havia carros atrás, mantendo certa distância de mim. Eles não buzinavam e ficavam esperando eu passar. Esse é o comportamento normal dos motoristas de lá.

Há ciclovias na maioria das ruas de Nova Iorque, não apenas em Manhattan, o bairro mais visitado pelos turistas, mas também em áreas mais distantes. Onde não há ciclovias, é provável que você depare-se com placas como esta à direita. Elas deixam claro que a bicicleta pode usar a faixa toda e que quem quiser ultrapassar deve trocar de faixa para fazê-lo.

Não pense que o motorista norte-americano é bonzinho e respeita os mais fracos no trânsito por altruísmo. Eles foram educados a duras penas. Multas nos Estados Unidos geralmente são caras, e as aplicadas a ciclistas e motoristas envolvidos em incidentes com ciclistas ou pedestres não fogem à regra. Mesmo assim, vi muitos ciclistas pedalando por calçadas, o que mostra que as multas a ciclistas não são comuns.

Pedalando em Nova Iorque

Há várias opções para quem quiser pedalar em Nova Iorque. A mais fácil e barata é alugar via aplicativo. Por três dólares você poder dar uma volta de até trinta minutos com as bikes da Citi Bike (https://www.citibikenyc.com/) ou por doze dólares você pode pegar as bicicletas quantas vezes quiser dentro de 24 horas, mas cada passeio não pode exceder trinta minutos.

Eu optei por um tipo de aluguél mais tradicional. Como iria passar cinco dias em Nova Iorque, comprei o New York Pass (https://br.newyorkpass.com), um pacote que inclui entradas em vários museus, atrações e passeios que enchem os dias na cidade de atividades. No New York Pass estão incluídos alguns passeios de bicicleta e optei por fazer dois deles. Por coincidência, os dois passeios que selecionei foram com a mesma empresa, a Unlimited Biking. Ela tem boas bicicletas para alugar a partir de quinze dólares. Quem tem o New York Pass não paga nada a mais.

Central Park

https://www.strava.com/activities/2526630697

O meu primeiro giro foi no mundialmente famoso Central Park. Duvido que você, amigo leitor, nunca tenha ouvido falar do Central Park. Centenas de filmes e séries tem passagens por lá. Esse parque retangular, encravado entre os arranha-céus da Big Apple, é a praia dos nova-iorquinos.

A construção do Central Park começou em 1857 e as primeiras áreas foram abertas ao público em 1858. Ele foi criado para atender à necessidade da população de Nova Iorque que entre 1821 e 1855 quadruplicou. Os moradores, para escapar da vida agitada e do barulho da cidade, procuravam espaços abertos e áreas verdes. Como os parques existentes na época não comportavam grande número de pessoas, até cemitérios passaram a ser usados como área de lazer. Os planos urbanos de Nova Iorque não contemplavam a construção de um grande parque central, mas sim pequenas áreas verdes. A situação levou a elite da cidade a mobilizar-se pela construção de um grande parque, que resultou na realização de um concurso para a escolha do design, vencido por Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux.

Atualmente, o Central Park possui 341 hectares de área. Apesar de parecer natural, o parque é artificial. Cerca de 140 mil m3 de solo e rochas foram removidos do parque. Para sustentar a vegetação projetada, 14 mil m3 de solo foram trazidos de Long Island e New Jersey. No seu interior há ruas, trilhas para caminhadas, florestas, pistas de patinagem no gelo, gramados enormes, vários lagos, parques infantis, monumentos, etc.

Fomos pedalar no Central Park no dia 12 de julho. Nós chegamos à empresa por volta das 9h da manhã. Ela fica a quinhentos metros da entrada sudoeste do parque. Apresentamos nosso New York Pass e rapidamente pegamos as bikes, todas Cannondale urbanas.

Saímos da loja e caminhamos pelas calçadas até chegar a uma ciclofaixa. Montamos nas bikes e pedalamos até o parque, passando pelo Columbus Circle. Logo encontramos a ciclovia que circunda o parque. Ela é de mão única (sentido anti-horário) junto à pista de carros. A estrada dá a volta em todo o parque, fazendo muitas curvas.

Pelo caminho avistam-se as belas paisagens que deixaram o Central Park famoso.

A volta toda tem dez quilômetros. Depois da primeira volta, tentei conhecer alguns pontos de interesse que eu havia planejado (Bethesda Fountain, Castelo Belvedere, The Great Lawn, Great Hill, Huddlestone Arch, Umpire Rock, Bow Bridge, Wagner Cove, Ramble Rustic Bridges, Hernshead, etc). Veja no mapa abaixo.

Não passei nem pela metade. Estava muito calor. Acabamos saindo do parque perto do Museu Guggenheim, procurando algum lugar para almoçar. Depois de um lanche rápido, decidimos ir para o Museu de História Natural.

Continuamos a volta até o lado oeste do parque e saímos para chegar ao museu. Prendemos as bikes num bicicletário e entramos. Que museu! O que mais me impressionou foram os fósseis de dinossauros. Um deles estica a cabeça para fora do maior salão do museu pois não cabe dentro. Com 37 m de comprimento, foi apelidado de Titanossauro.

Saímos do museu por volta de 15h. Atravessamos a rua e voltamos ao Central Park. Completamos a volta, saímos do parque e devolvemos as bikes na Unlimited Biking.

Essas nossas duas voltas com saídas e desvios nos permitiu pedalar quase trinta quilômetros.

Brooklyn Bridge e Manhattan Bridge

https://www.strava.com/activities/2531769901

No dia 14, fomos ao sul de Manhattan. Caminhamos até outra unidade da Unlimited Biking no City Hall Park, bem próxima à Ponte do Brooklyn. Para nossa surpresa, a mesma pessoa que nos atendeu na loja próxima ao Central Park estava lá. Ele entregou-nos as bicicletas e saímos em direção à ponte. Há uma ciclovia sobre ela que é frequentemente ocupada pelos pedestres. A Brooklyn Bridge é um dos pontos turísticos imperdíveis de Nova Iorque.

A ponte que liga Manhattan ao Brooklyn é uma maravilha, tanto que foi considerada a Oitava Maravilha do Mundo. Construída sobre o East River é a ponte suspensa mais antiga dos Estados Unidos e, quando foi entregue, em 1883, era a maior ponte suspensa do mundo, com 486 m de extensão no vão principal. Cada cabo que a sustenta tem 1090 m de extensão e quarenta centímetros de espessura.

Atualmente, cerca de cem mil carros, quatro mil pedestres e 2600 bicicletas passam diariamente pela ponte. É um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Os milhares de turistas que transitam pela ponte não têm ideia do esforço empregado para construí-la. Foram quatorze anos de obras em que trabalharam seiscentos operários. Há estimativas de que até quarenta pessoas morreram durante a construção, inclusive o arquiteto John Augustus Roebling, criador da ponte. Roebling teve um pé esmagado e teve que amputar dois dedos, morrendo quase um mês depois de tétano. 

Parece inusitado, mas muitos trabalhadores sofreram de doença descompressiva, problema atualmente muito conhecido entre mergulhadores mas desconhecido na época. É que para construir a fundação das torres da ponte, os engenheiros projetaram caixas estanques que eram afundadas até o leito do rio, onde os trabalhadores podiam escavar ou instalar explosivos. A água era mantida fora das caixas estanques por meio de ar comprimido que era bombeado desde a superfície. A pressão atmosférica dentro das caixas era maior do que o dobro do normal. Assim, quando saíam das caixas, os operários sofriam a doença causada pelo surgimento de bolhas de nitrogênio na corrente sanguínea devido à rápida mudança de pressão atmosférica. Até o filho de John Roebling, Washington Roebling, foi vítima da doença descompressiva e ficou acamado por longos anos. Ele assumiu a obra depois do falecimento do pai mas devido à doença não podia mais conduzir a obra pessoalmente. Sua esposa, Emily Warren Roebling, tornou-se intermediária entre Washington e seus assistentes. Ela tornou-se assistente-chefe e praticamente assumiu a obra durante onze anos. Como reconhecimento pelo seu trabalho, na inauguração, Emely foi a primeira pessoa a cruzar a ponte, numa carruagem, carregando um galo como sinal de vitória.

Ainda em 1883, logo depois da inauguração, ocorreu um incidente trágico. Uma mulher prendeu seu calçado em tábuas da passagem de pedestres e começou a gritar. As pessoas próximas entenderam que a ponte estava prestes a ruir, o que causou pânico, correria e a morte de doze pessoas pisoteadas. O incidente chocou a população e ninguém queria mais usar a ponte por considerá-la insegura. A solução para o imbróglio foi encontrada em um circo que estava na cidade. Existia uma crença de que elefantes não passavam sobre estruturas que não fossem firmes. Vinte e um elefantes, entre eles Jumbo, um macho de sete toneladas, foram emprestados do circo. Como os elefantes atravessaram a ponte sem relutar, a população acreditou que a ponte era segura.

É fácil entrar na ciclovia da ponte. Não tem erro. A ciclovia e passeio de pedestres é na parte superior, garantindo um ensolarado e quente passeio (40º Celsius no verão). Como há muitos pedestres, não tem jeito, eles invadem a ciclovia, mas, mesmo assim, a maioria sai da frente quando nos vê aproximando.

Aí começa a luta para tirar uma boa foto. Se quiser a ponte livre, sem uma dúzia de pessoas desconhecidas nas suas fotos, chegue bem cedo. Eu entrei na ponte às 9h30 da manhã. Consegui algumas fotos sem companhia, mas logo começaram a chegar mais e mais pessoas e acabaram com a minha alegria.

Atravessamos a ponte parando em alguns pontos para fotografar. As pessoas aglomeram-se nas torres, onde há sombra e algumas informações sobre a ponte em placas de bronze. A partir das torres é possível contemplar a Estátua da Liberdade e os prédios do sul de Manhattan sem os cabos de aço da ponte atrapalhando a vista.

Continuamos a travessia e chegamos ao Brooklyn. A ponte é curtinha, então, passe devagar e curta o passeio.

Como eu não gosto de voltar pelo mesmo caminho, planejei a volta pela Manhattan Bridge, ponte vizinha à do Brooklyn. Segui por ciclovias e ruas até conseguir encontrar a entrada da ciclovia da Manhattan Bridge. Santo Google Maps! Foi difícil encontrar. Ao contrário da Brooklyn Bridge, a Manhattan não foi feita para turistas, apesar de ser bonita. A ciclovia é na lateral da ponte e tem grades dos dois lados.

A Ponte de Manhattan também é suspensa, como a do Brooklyn, tendo 448 m de vão central e 983 m considerando os acessos. Ela foi inaugurada em 1909.

Saí da ponte em Chinatown, depois passei por Little Italy e pela Broadway Avenue voltei ao City Hall Park, onde devolvemos as bikes. Menos de dez quilômetros de pedal, mas valeu a pena.

Depois, atravessamos a ponte a pé e passamos o resto da tarde no Brooklyn.

Estando em Nova Iorque, reserve algumas horas para pedalar na cidade.

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