Mata Cavalo – 21/11/2020

Brasília, 21 de novembro de 2020

https://www.strava.com/activities/4374533844

Apesar de morar em Brasília desde 2008 e já ter pedalado por quase todos os cantos do DF, Planaltina/DF e Planaltina de Goiás são cidades que nunca havia visitado, apesar de ter pedalado algumas poucas vezes por parte de seus territórios.

Planaltina era um município goiano que, com a implantação do Distrito Federal no Planalto Central no final dos anos 1950, acabou sendo dividido pela linha imaginária que divisou Goiás e Distrito Federal. O antigo centro urbano ficou dentro dos limites do DF e herdou o nome original. Houve, então, a necessidade de definir-se nova sede municipal para o território restante, que continuou pertencendo ao Estado de Goiás. A sede funcionou provisoriamente perto da Lagoa Formosa e depois em São Gabriel, até que, em 1967, escolheu-se a Fazenda Brasília como local definitivo. A implantação teve muitas semelhanças com a construção de Brasília. Ela foi capitaneada por um mineiro, o então prefeito Eloy Pinto de Araújo, o cerrado da área teve que ser desbravado e precárias casas de madeira abrigaram os primeiros moradores e prédios públicos. Devido a essas coincidências em relação à construção de Brasília, a cidade ganhou o apelido de Brasilinha: “Estão construindo uma Brasilinha”, diziam os moradores.

Fábio Siqueira, o Fabão MTB Brasil, foi quem me convidou para fazer a Trilha Mata Cavalo. O ponto zero foi em Brasilinha, para onde seguimos de carro no sábado de manhã. Eu segui de carona com Fabão. Partimos às 4h45 da madrugada devido à distância de Planaltina em relação a Águas Claras. Chegamos por volta de 6 horas na casa de Juninho Vidal, que nos preparou café da manhã reforçado. Juninho seria nosso guia.

Por volta de 7 horas partimos. As ruas estavam molhadas e sinalizavam que o dia poderia ser de chuva. Saímos da cidade pelo norte, seguindo placas que indicavam o caminho para o município de Água Fria. Logo no início, Juninho avisou: “Esqueci de mandar o tracklog pro GPS.” Felizmente, na véspera, estudando o roteiro que faríamos, entrei na atividade do Strava que Fabão havia enviado, baixei o tracklog e carreguei-o em meu GPS. Se o nosso guia tivesse dúvidas, não nos perderíamos.

Nosso caminho de ida foi pela GO-430, rodovia sem asfalto. Quase sempre descendo, com poucas e curtas subidas.

Os dois primeiros cursos d’água que atravessamos foram um afluente do Córrego Lambari e o Córrego Vereda Grande. Os dois possuem lagoas naturais em seus cursos. O Vereda Grande forma logo ali, há centenas de metros da estrada, a Lagoa Vereda.

Essa é uma característica marcante dessa região do Planalto Central: as lagoas. Historicamente, elas serviram de referência para bandeirantes e estudiosos em suas incursões pelo interior do Brasil. Lagoa Bonita (Mestre d’Armas) e Lagoa Formosa são citações corriqueiras em relatos antigos. 

O caminho seguiu por belas paisagens, com lavouras e pastagens nas partes planas e morros e chapadas no entorno. Pela rodovia, cruzamos ainda o Córrego Jerivá e o Córrego Grota da Pedra Branca.

Continuamos pela GO-430 até o quilômetro 24, um pouco antes de chegar ao Ribeirão Cocal, onde pegamos estrada à esquerda. Cruzamos vários cursos d’água, todos afluentes do Cocal: Bocaina Grande, Pedra Preta, da Pedreira e do Landim.

Paramos para descansar no quilômetro 34, ao lado de uma placa que indicava a direção da Fazenda Mata Cavalo.

Juninho disse que os barrancos eram tão altos nessa fazenda que os cavalos que caíam nas ribanceiras não sobreviviam, daí o nome da fazenda. Até ali havíamos subido pouco mais de trezentos metros. Juninho avisou: “Algo de errado não está certo”. E realmente, a partir dali a trilha mudou totalmente. 

Estávamos na borda oriental de uma grande área de terras franzidas chamadas Serras do Maranhão e agora passaríamos a pedalar entre os morros da serras até voltar a Planaltina.

Logo de cara enfrentamos um subidão íngreme de dois quilômetros.

Cruzamos o alto do morro, descemos do outro lado e logo entramos numa estrada à esquerda, onde passamos por porteira. Ali começou outra subida bem difícil, de apenas quinhentos metros, mas bem íngreme. Ela levou-nos ao alto do morro, aos 1.040 metros de altitude, onde descortinou-se belíssima paisagem. As pastagens, matas e cerrados estavam muito verdes. Dalí, podíamos ver as estradas por onde seguiríamos.

Depois de alguns minutos de contemplação, descemos a serra. A descida é igualmente íngreme e a estrada faz zigue-zaque.

Paramos no final, embaixo de um jatobazeiro, à beira de pequena represa, para descansar.

Voltamos a girar e seguimos por carreadores em meio às pastagens. Tudo ia bem, até que chegamos na sede de uma fazenda. A vacada estava toda em volta da sede. Criar gado exige técnica, não é só soltar os bichos no pasto e esperar crescerem. Prática comum é apartar os bezerros das mães para que eles não mamem todo o leite. Para nosso azar, entramos exatamente no piquete-creche. As mães ficam do outro lado da cerca, de onde conseguem alcançar os filhotes, lambê-los e cheirá-los. Algumas vacas são deixadas junto aos bezerros, como se fossem babás. Pois foram elas que nos enfrentaram, defendendo as crias. Tensão no ar! Ciclistas, vacas e bezerros ficaram nervosos. Juninho foi o primeiro que tentou passar, mas uma das babás colocou ele pra correr.

As mães aproximaram-se da cerca para defender as crias. Ficamos esperando e imaginando alternativas. Aos poucos, as babás levaram os bezerros para longe da estrada. Apenas um bezerro, em vez de seguir as babás, entrou no curral por onde passaríamos. Aproveitamos a chance e corremos para o curral, mas o bezerro resolveu voltar e a mãe dele, do outro lado da cerca, ficou brava. Foi tenso! A vaca avançou sobre nós, mas a cerca segurou o bicho e, apesar do susto, chegamos sãos ao curral. Claudete, funcionária da fazenda, já nos esperava na varanda de sua casa. Felizmente, foi muito receptiva, nos deu água e explicou onde era a saída.

Saímos da fazenda subindo por longa estrada abandonada, erodida, pedregosa, dentro de área de cerrado, com algumas cercas para pular.

Assim chegamos a uma estrada no alto. Foi aí que comecei a preocupar-me com nosso guia. Ele queria ir na direção contrária à que o tracklog indicava. Felizmente, ele acreditou em mim e seguimos pelo lado correto.

A vista não era lá muito animadora. Avistávamos a estrada rasgando as serras cobertas de mata à nossa frente.

Por ela, cruzamos o Córrego Salobro e o Córrego Buriti.

No quilômetro cinquenta, parei em frente a uma porteira. Nosso guia Juninho confessou: “Não tenho a mínima ideia de onde estamos. Estou perdidinho.” 😱 É cada guia esse Fabão arruma! 😂

Mas o meu tracklog estava lá para novamente salvar o dia. Pulamos a porteira e seguimos pelo meio das fazendas.

Cruzamos outra grande área de cerrado, entre os vales do Córrego Saco Grande e Grota do Bora. No final, passamos por outra fazenda com gado solto. Dessa vez, o gado saiu da estrada quando nos viu chegar.

Fabão deu uma de louco nesse final de semana. Fez um pedal pesado na sexta-feira, com mais de 1.200 metros de subida, e no sábado encarou esse desafio Mata Cavalo. Não teve tempo de recuperar-se. É como querer passar o dia usando o celular mas sair de casa com a bateria em 50%. Nessa altura da trilha, ele já estava bem cansado e teve que acionar seu modo econômico de consumo de energia.

Atravessamos a Grota do Bora e logo depois paramos para lanchar na entrada de uma fazenda, cuja sede avistávamos logo à frente.

Findo o lanche, seguimos na direção da fazenda e passamos pela porteira da sede. Para vencer o morro que há logo ali, atrás da casa, em tempos chuvosos, o proprietário teve que calçar a estrada com pedras. Subimos a estrada calçada, passando por mais gado solto.

Nosso guia descobriu onde estávamos quando passamos por uma porteira no alto do morro. Estávamos na região da Comunidade Canjica.

Seguimos o sobe e desce de morros até chegar à Biquinha.

Passamos por ponte sobre o pequeno Córrego Capoeira e descemos para tomar um banho nesse ponto de parada tradicional entre os ciclistas da região. Um cano extrai água de uma nascente próxima e a derrama sobre o leito, formando uma bica d’água vigorosa. O banho é gelado e revigorante, e ajuda a recuperar a sanidade dos músculos para os próximos desafios.

Saímos do fundo do vale do Capoeira subindo. Foram 2,4 quilômetros até o alto da chapada. O trecho final é um empurra bike pesado, conhecido como Subida da Biquinha. É daqueles em que o pé escorrega no cascalho e é preciso fazer muita força para levar a bicicleta até o alto. Mas, como sempre, a vista recompensa o esforço.

No quilômetro 66 de nossa trilha chegamos à porteira que marca o início do trecho mais interessante da “Trilha de Quarenta”. O nome deve-se à distância que os ciclistas de Planaltina de Goiás percorrem para fazer essa trilha, saindo e voltando para a cidade são quarenta quilômetros de percurso.

O trecho que percorremos da “Trilha de Quarenta” é um verdadeiro playground para ciclistas off-road. Há empurra-bikes, rock gardens, descidas técnicas. O trecho que percorremos tem aproximadamente cinco quilômetros que são um desafio em tanto.

Na parte mais alta, a deslumbrante vista do mar de morros das Serras do Maranhão, íngremes e erodidos. Esse trecho tem duas passagens mais pesadas, para alcançar o alto dos morros, mas o maior parte é pedalável.

Passamos a ser perseguidos por forte chuva que vinha do leste. O céu de nuvens doidas do Planalto Central justificava o apelido: sob sol escaldante avistávamos a chuva ao longe, que aos poucos vinha em nossa direção.

Finalmente, chegamos ao alto de uma chapada e pedalamos pelo meio do cerrado até chegar a bela fazenda, cuja lavoura ocupou o suave relevo dos morrotes da área. Lembrou-me as coxilhas gaúchas.

Saímos da fazenda pela estrada de terra vermelha cheia de poças d’água enormes, que nos empurravam para as margens para tentar passar sem atolar.

Logo cruzamos o Córrego Lambari e chegamos de volta à cidade. Paramos numa das primeiras casas, onde uma gentil senhora nos deu água gelada. Pelo que os amigos contaram, é tradição parar na casa dessa senhora para beber água e sua gentileza é paga com cestas básicas doadas durante o ano pelos agradecidos ciclistas.

A trilha teve 87 quilômetros com 1.433 metros de subida. Fabão deu um show de controle psicológico, mantendo o ritmo para conseguir terminar o pedal. Valeu demais, Fabão e Juninho.

Segue aí o vídeo produzido pelo Fabão: 

2 comentários sobre “Mata Cavalo – 21/11/2020

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