Morro do Chapéu ou morro no Chapéu? Só depende de você.

Por Evandro Torezan.

São João da Aliança/GO, 26 de fevereiro de 2022.

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Nos bons tempos do Pedaguas, mais ou menos entre 2011 e 2016, quando alguma trilha era muito difícil e não recomendada para nossos queridos amigos paus-de-rato (PDR: ciclista que não dá conta do recado), a imagem abaixo era postada no convite para lembrá-los do perigo que seria entrar numa aventura daquele tipo sem estar preparado fisicamente:

Perigo de morte de pau-de-rato (PDR)
Perigo de morte de pau-de-rato (PDR)

Nós não rejeitávamos a companhia dos PDRs, longe disso. Nosso calendário contemplava trilhas fáceis, médias, difíceis e muito difíceis. O ciclista tinha que começar com as fáceis e evoluir gradualmente, mas alguns decidiam estrear justamente nos piores momentos, apresentavam-se para fazer trilhas muito difíceis e ocorria o óbvio: fritos antes da metade, tinham que ser ajudados, puxados, alimentados, hidratados e paparicados por horas para que conseguissem chegar ao final do percurso no dobro do tempo que inicialmente tínhamos previsto. Anos depois do encerramento oficial das atividades semanais do grupo, de vez em quando ainda aparece alguém lembrando-se nostalgicamente do que sentia ao receber esses convites: “Evandro, eu ficava com medo quando você mandava aquela caveira.”

A trilha Morro do Chapéu, que se desenvolve no município de São João da Aliança/GO, é digna da imagem acima. Sua fama é de ser uma das trilhas mais difíceis da região. Eu já tinha tentado ir lá duas vezes, mas nas duas ocasiões tive que desistir. Desta vez, o convite do amigo Lcaso foi feito com boa antecedência e tive tempo de preparar-me a contento.

Nesse tipo de trilha, geralmente aparecem dois tipos de ciclistas: os bem preparados e os mal informados. Quem olha apenas os números, não imagina que é tão difícil. São 81 quilômetros com 1.853 metros de subida. Já fiz trilhas com números bem piores. O problema é que a Morro do Chapéu concentra setecentos metros de ganho de elevação em pouco menos de dez quilômetros de percurso. É essa subida sem fim que fez a fama da trilha e frita sem dó os pobres pedalantes desprevenidos.

No sábado de madrugada, 3h50, o amigo Lisboa passou em minha casa e seguimos de carro até o Taguaparque, de onde sairia a van. O combinado era partir às 4h30, mas dois atrasadinhos fizeram-nos esperar até às 5 horas. Ainda fizemos paradas no Posto Colorado (Sobradinho) e no Posto Itiquira (Planaltina) para pegar mais alguns ciclistas.

Com a van lotada e grupo completo, seguimos viagem. O grupo ficou assim: Lcaso, Celso Eduardo, Marcos Paulista, Evânio, Dell Planaltina, Reginaldo, Anderson Bike Top, Alan, Pastor Fabrício, Lisboa, Eugênio, Paulo Henrique, Sinara, Danniel e eu.

Em São Gabriel, paramos na Pamonharia Vó Belmira para tomar café da manhã. Depois seguimos para nosso destino final, São João da Aliança, cidade cortada pela GO-118, onde chegamos às 7h45. Incrustada na região da Chapada dos Veadeiros, São João está confinada no vale formado entre a Serra do Bonito, a oeste, e a Serra Geral do Paranã, a leste.

A van estacionou na frente de um hotel, na margem da rodovia. Preparamo-nos para a partida o mais rápido possível. Às 8h30, o Pastor Fabrício puxou a oração, Lcaso deu alguns avisos e finalmente partimos para nossa aventura. Saímos pedalando em direção à Serra Geral do Paranã, pelo leste. Até a passagem pelo Córrego Extrema foi tranquilo, estrada predominantemente plana em meio a lavouras e pastagens. Depois do córrego, entramos no cerrado e começamos a subir. Desde o Extrema até o interflúvio foram seis quilômetros de subida. Deixamos para trás o vale do Ribeirão das Brancas, onde fica a cidade, e entramos no Vale do Paranã.

A serra escarpada, coberta por vigorosa mata, é berço de centenas de cursos d’água que escorrem para o Rio Paranã, o senhor do vale. O visual é magnífico. Ao passar por lá, amigo pedalante, desça sem pressa. Vale a pena. É isso que justifica a viagem. Ou você vai só para pedalar?

Lá de cima avistam-se dois grandes lagos no vale. O maior, mais ao sul, é o lago da Barragem do Paranã. O menor, mais ao norte, está no Córrego Porteira.

Entramos na descida sem fim conhecida como Boca da Onça. É descida forte de dez quilômetros com curvas traiçoeiras. Tome cuidado para não sair pela tangente em alguma delas e integrar-se definitivamente ao cerrado! A estrada acompanha o curso do Córrego Vermelho.

Aos onze quilômetros de trilha, uma paisagem maravilhosa aparece a leste. Do alto descem algumas altíssimas cachoeiras, num pedaço da serra onde se formaram precipícios. É hora de parar e admirar a obra da natureza. Elas estão a cerca de um quilômetro da estrada, mas é possível avistar pequenas linhas brancas saltando e escorrendo dos paredões.

A esta altura do pedal, algumas pessoas haviam ficado para trás. Sinara e Danniel tiveram problemas com o GPS e acabaram não saindo com o grupo. Anderson e Lcaso, quando perceberam a ausência do casal, voltaram para São João para ver o que havia acontecido. Resolvido o problema, seguiram juntos.

Eu acabei ficando sozinho na descida. É muita beleza para olhar! Recuso-me a descer rápido. Como estávamos na época das chuvas, tinha água descendo por todo lado. Alguns trechos da estrada estavam com lama.

Serpenteando entre os morros da serra, cheguei na baixada. Passei pela entrada da Cachoeira do Label. Até pensei que a mais alta das cachoeiras que avistei na Boca da Onça seria a do Label, mas não era.

Logo depois, alcancei a GO-116, rodovia sem asfalto que percorre o Vale do Paranã. Segui à esquerda na rodovia e logo cruzei o Ribeirão Extrema. Não o confunda com o córrego homônimo do alto da serra pois são distintos.

Nas margens da GO-116 havia muita água acumulada nas valas de onde tiraram a terra usada para aterrar a estrada. Passei também por alguns atoleiros. Num deles, um caminhão tentou passar com uma carga de tijolos, mas não conseguiu. Acabou atolado no lamaçal e parcialmente tombado para o lado direito. Nesse local havia quatro carros tentando passar, sendo que três estavam atolados e o único que passou tentava puxar os outros, um a um. A GO-116 não é um bom lugar para percorrer de carro na época das chuvas.

Logo depois, encontrei a turma que estava pedalando comigo no alto da serra: Evânio, Marcos Paulista, Alan e Lisboa. Seguimos juntos até o Bar do Nadirão, no Assentamento Santa Maria. O bar é o ponto de parada oficial da trilha. Fomos atendidos pela Dona Dalva, esposa do Nadirão. Tomamos refrigerante enquanto esperávamos o resto da turma chegar.

Estranhamos muito a ausência do Sr. Luis Carlos, vulgo Lcaso, que gosta de correr na frente de todo mundo. Até o papagaio da Dona Dalva riu das nossas piadas falando da ausência de Lcaso.

Pagamos a conta e quando estávamos saindo, Lcaso chegou e revelou o motivo de sua demora: estava dando apoio à turma da cozinha. Lcaso na cozinha! Quem diria!

Até aí tínhamos pedalado 36 quilômetros. Saímos do bar e seguimos para o oeste, deixando para trás a GO-116. Logo encontramos o resto de nosso grupo, parados embaixo de uma árvore lanchando. Nós seguimos pois iríamos parar num riacho bem no início da subida.

Depois de cruzar o Córrego Porteira, com sua várzea cheia de indaiás, avistamos a uns duzentos metros de nós um bicho amarronzado atravessando a estrada. Ficamos discutindo se seria uma onça parda, um lobo guará, um veado ou um cachorro bem grande.

Oito quilômetros depois do Nadirão, chegamos à GO-236. Essa rodovia estadual liga a GO-118, no alto da serra, à GO-116, no Vale do Paranã. Seria por ela que seguiríamos. Por incrível que pareça, a estrada erodida, extremamente inclinada, que tem passagens de rio a vau, que nós chamamos de subida do Morro do Chapéu, é uma rodovia estadual.

Mais um quilômetro descendo e chegamos a outro riacho, afluente do Porteira, às 11h30. É o início da subida de dez quilômetros. Todo o grupo reuniu-se ali. Enquanto a maioria refrescava-se no riacho, eu aproveitei para lanchar. Sentei-me numa sombra e comi meu pão com atum. Um colega aproximou-se enquanto eu comia. Sentou-se ao meu lado e puxou conversa. Perguntei-lhe se ele não teria trazido lanche, e não tinha. Como é que uma pessoa vem pra uma trilha dessas sem trazer nada para comer?! Dividi meu lanche com ele, senão ele não chegaria ao final.

Depois de comer, atravessei o riacho e fiquei esperando a turma terminar o banho. Molhei as pernas e a cabeça, reforcei o protetor solar, passei óleo na corrente e preparei-me psicologicamente para o que estava por vir.

Ao sair da mata ciliar do riacho, o Morro do Chapéu dá as caras. Lá está ele, impávido colosso a observar o vale e os pequenos humanos ciclos equipados que o desafiam. Como seu nome revela, ele tem formato de chapéu. De longe é possível ver um vinco em sua copa. É a estrada por onde passaríamos minutos, talvez horas, depois.

Morro do Chapéu

A inclinação aumenta gradualmente conforme pedalamos em direção à serra. Depois de uma curva, surge a primeira parede. Logo de cara derrapei no cascalho e tive que empurrar a bicicleta. Montei no alto e voltei a pedalar. Não é fácil! É uma parede atrás da outra, com cascalho e degraus. Exige técnica e força. Meus batimentos ficavam na Z5 a maior parte do tempo e de vez em quando visitavam a Z6, quando eu sentia minha jugular pulsar.

Depois de dois quilômetros de subida, surge um pequeno alívio, descida em terreno rochoso, até atravessar um riacho a vau. Depois volta a subir e os paredões vão se sucedendo. Se a estrada fosse lisa, já seria difícil, mas não é. Os degraus e o cascalho solto exigem que o ciclista estude o local exato onde vai colocar seus pneus. De vez em quando, para vencer algum degrau, é preciso acelerar. É aí que a jugular pulsa! Como diria Galvão Bueno, “É teste pra cardíaco!”, no nosso caso, literalmente.

As paredes, tímidas, escondem-se atrás das curvas. Eu subia com todas as minhas forças aquela ladeira que parecia terminar ali, no alto, mas no alto tinha uma curva, e depois da curva outra parede. Não sei de onde vinham essas forças, mas seja lá de onde for, às vezes acabavam, aí só restava-me empurrar a magrela.

No meio da subida há uma fazenda isolada. Dá pra ouvir o barulho de uma cachoeira do lado direito da estrada. Passei pelo meio do pasto e continuei subindo. A partir daí, as belas paisagens começaram a aparecer. Aproveitei e fiz uma paradinha para apreciar a vista. Dava pra ver os dois lagos e o mar de cerrado que ainda predomina na região (Thanks, God!) 

O tapete verde de cerrado no Vale do Paranã e os dois lagos.

Precavido que sou, trouxe um gatorade especialmente para essa subida. Parei duas vezes para bebê-lo. A primeira metade bebi aí, depois da fazendinha. Estava quente como chá. Felizmente era de limão, e eu gosto de chá de limão.

Nesse momento, o Pastor Fabrício alcançou-me. Segui com ele. Ele pedala bem. Acho que o segredo dele são as orações.

Chegamos ao Morro do Chapéu. Fomos contornando-o, passando pelo vinco na copa que havia avistado lá de baixo. Nesse ponto encontramos uma cascavel morta no meio da estrada.

Cascavel

Mais um pouco e a vista abriu-se novamente. Que visual! Agora era possível apreciar os contrafortes da Serra Geral do Paranã, que descem para o vale e escoram o espigão principal.

Contrafortes da Serra Geral do Paranã

Quando a inclinação diminuiu um pouco, procurei uma sombra e parei para descansar. O pastor não parou e sumiu, junto com Anderson, que havia se juntado a ele. Pelo jeito que subiram rápido, devem ter seguido orando. Eu tomei o resto do meu chá, digo, gatorade, e deitei no chão macio (o que o cansaço não faz com a gente!). Quando já ia me preparando para sair, ouvi a voz do Marcos Paulista ao longe. Lisboa e Evanio estavam com ele. Eles chegaram e tomaram minha sombra. Esperei-os descansar e seguimos juntos.

No alto da serra, ainda subindo, encontramos um riachinho cortando a estrada. Não resistimos e paramos para aliviar o calor. Encontramos até uma cachoeirinha ali, na beira da estrada. Evânio confessou que foi a primeira vez que parou num rio para tomar banho desde que começou a pedalar. Rapaz! Inacreditável! Eu gosto muito de parar nos rios que encontro pelo caminho.

A luta contra a serra durou 3,7 quilômetros desde nossa parada no Morro do Chapéu. As belas paisagens vistas do alto amenizaram a dureza do terreno. Pedalando onde dava e empurrando quando necessário, vencemos o desafio.

Desde a passagem pelo riacho onde lanchei (503 metros de altitude) até o ponto mais alto da trilha (1.212 metros) percorremos 9,6 quilômetros, ganho altimétrico de 709 metros. Sobe tanto que dá até pra ver a circunferência da Terra lá de cima.

O pior havia passado. No alto, pelo meio do cerrado, descemos um pouco, parecia até que íamos passar entre os morros serra abaixo, mas logo fizemos curva à direita e começamos a subir. A ladeirinha de 1,5 quilômetro nem cansou a turma, curtidos na dureza que havíamos enfrentado há pouco.

Seguimos cruzando o cerrado até a cabeceira do Córrego Flamengo. Acabou ali a parte bonita da trilha. Entre lavouras, seguimos até a GO-118, mas antes de alcançar o asfalto ainda tivemos a alegria de ver uma família de emas percorrendo uma lavoura de soja recém-colhida.

Ao chegar ao asfalto, o Evânio estava tão perdido que queria seguir à direita. Se deixássemos, ele iria parar em Alto Paraíso. Nosso caminho era à esquerda. Foram onze quilômetros de longas subidas até voltar a São João da Aliança.

A temida Trilha Morro do Chapéu foi vencida. Foram 81,5 quilômetros com 1.853 metros de subida (registrados pelo GPS).

Por volta das 16 horas terminamos a trilha. Encontramos a van na frente do hotel. Guardamos as bikes, tomamos banho no hotel e tivemos tempo até de almoçar. 

Lcaso presenteou-nos com um certificado de conclusão da trilha. Foi a primeira vez que vi isso. Mas foi merecido. Completar a Trilha Morro do Chapéu é um feito digno de certificado!

Partimos de volta para Brasília às 17h30. 

Enquanto estava lá, sofrendo para subir a serra, pensava comigo: “Nunca mais volto aqui!” O problema é que ciclista de MTB tem memória curta. Apesar do sofrimento, já tenho planos de voltar, mas, na próxima, vou tirar o asfalto e percorrer a trilha ao contrário, subindo a Boca da Onça. E aí, quem topa ir comigo?

3 comentários sobre “Morro do Chapéu ou morro no Chapéu? Só depende de você.

  1. Gostei de todo o percurso, apesar de todo o sofrimento, mas gostei mais da história narrada por você. parabéns EVANDRO:

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