Posse d’Abadia – 02/04/2022

Brasília, 2 de abril de 2022.

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João de Deus (João Teixeira de Faria) mudou a história da pequena Abadiânia, cidade goiana que dista cem quilômetros de Brasília. Não sei se ele é médium ou charlatão, mas o fato é que, usando seu dom, seja ele qual for, teve sucesso em seus empreendimentos. Ele começou como curandeiro, viajando de cidade em cidade vendendo “garrafadas”, até que em 1976 fundou, em Abadiânia, a Casa de Dom Inácio de Loyola, onde passou a atender seus “pacientes”. A fama de João cresceu e trouxe dividendos. Visitantes famosos no Brasil, como Xuxa, e no mundo, como Oprah Winfrey, e vários políticos brasileiros deixaram-no milionário. No entorno de seu centro de atendimento, vários negócios nasceram. Serviços de transporte, hospedagem e alimentação espalharam-se e prosperaram. Comércio e serviço mudaram o perfil econômico da cidade, que deixou sua vocação natural, agrícola e pecuarista, e transformou-se num dos mais importantes polos turísticos de Goiás.

Porém, escondido sob o manto de homem santo, jazia um libidinoso pecador inescrupuloso que usava seu dinheiro, fama e poder para abusar sexualmente de mulheres psicologicamente abaladas por doenças físicas e espirituais. Em 2018, ele foi acusado de abusar e violentar mais de trezentas mulheres que com ele buscavam ajuda para curar seus males. João de Deus foi preso, virou meme e os negócios que orbitavam no seu entorno afundaram junto com ele.

Mas não foi apenas João de Deus que causou grandes mudanças em Abadiânia. O povoado original surgiu em 1874, a quatorze quilômetros da sede atual, próximo ao Rio Capivari, com o nome de Posse. Em 1943 tornou-se distrito de Corumbá de Goiás e foi batizado como Abadiânia, em homenagem à sua padroeira, Nossa Senhora da Abadia. Em 1953 tornou-se município.

Na década de 1960, a construção de Brasília e da BR-060 (Brasília – Goiânia), atraiu moradores para a margem da rodovia, onde nasceu o povoado de Novo Horizonte. Como o novo núcleo urbano tinha mais fácil acesso rodoviário, e passou a desenvolver-se mais efetivamente, em 1963 a sede municipal foi trasnferida. O antigo povoado ganhou a denominação de Posse d’Abadia e permanece quase o mesmo desde então. O local também é conhecido como Abadiânia Velha.

Pois foi esse o destino que os amigos João Campos e Fernando Marques escolheram para inaugurar o segundo trimestre ciclístico de 2022. Eu relutei no início, mas os amigos fizeram pressão e tive que entrar nessa peleja. Devido à demora em decidir, não consegui vaga nas vans, que eram quatro. Sessenta e poucos ciclistas encararam a aventura e lotaram as vans rapidamente. Felizmente, meus amigos Emídio e Lisboa também ficaram de fora e, assim, tivemos que organizar um transporte para buscar-nos em Posse.

Sabadão, 5h30 da matina, lá estava eu escalando a Avenida das Castanheiras em Águas Claras, rumo ao antigo Posto da Polícia Rodoviária, em Samambaia, onde me encontrei com Lisboa e Emídio. Oramos antes de iniciar nossa jornada e partimos às 6h10.

Emídio, Lisboa e Evandro

O ponto zero oficial da trilha foi a loja Castelo Forte, em Samambaia, de onde o pelotão principal partiu às 6 horas. Nós não fomos até lá. Depois de passar pela primeira entrada de Samambaia pegamos uma longa descida até o entroncamento da BR-060 com a DF-180. Subimos um pouco e logo entramos à direita, saindo do asfalto e seguindo por estradas de terra, passando pela área onde há alguns acampamentos de sem-tetos e sem-terras.

O sol já brilhava forte, prenunciando um dia quente.

Reencontramos o asfalto já próximo a Santo Antônio do Descoberto. Seguimos pela DF-280 até cruzar a ponte sobre o Rio Descoberto e sair do Distrito Federal. Bem vindos a Goiás!

Seguimos pela Avenida Goiás para cruzar a cidade, tomando “finas” dos motoristas goianos. Foi aí que vimos os primeiros ciclistas do pelotão que saiu de Samambaia. Este grupo estava sendo guiado pelo Alexandre Naves.

Saímos de Santo Antônio e continuamos pela GO-225 até a entrada da estrada de terra. Desde a ponte na entrada da cidade são onze quilômetros de subida. A partir daí, a viagem ficou mais interessante. O asfalto foi deixado para trás e adentramos nas estradas de chão de Goiás.

É um caminho muito conhecido pelos ciclistas de Brasília, caminho que usamos para ir a Pirenópolis. Depois de subir uma chapada e pedalar alguns quilômetros pelo alto, chega-se ao Rio Areias.

Cruzamos a ponte e enfrentamos um dos trechos mais difíceis da viagem. São seis quilômetros de subida até o alto de outra chapada. Do outro lado, na borda da chapada, há uma bifurcação crucial de nossa jornada. À direita a estrada leva a Aparecida de Loyola, à esquerda, para Olhos d’Água. Seguimos à esquerda, descendo até o Córrego do Valério. Se a bela mata da borda da chapada não tapasse nossa visão, avistaríamos, do outro lado do vale, na mesma altura em que estávamos, a estrada por onde passaríamos, porém, para chegar lá, teríamos que atravessar o córrego no fundo do vale. Então, descemos. O Córrego do Valério estava com muita água. Não me lembro de já o ter visto tão volumoso.

Passei por mais alguns ciclistas da turma na subida. Parei no alto e esperei os amigos chegarem.

No alto há uma bela alameda de eucaliptos. Descansamos na sombra. Retomamos a atividade quando todos chegaram. Cruzamos outra chapada antes de voltar a descer, para cruzar o Córrego Muquém e o Ribeirão Cachoeira. A saída desses dois cursos d’água são bem íngremes e a vista de longe impressiona.

No final da escalada do Cachoeira, chegamos à GO-139. Dali até Olhos d’Água é só descida, sendo os dois primeiros quilômetros de asfalto e os dois últimos de terra, pela antiga estrada de acesso da cidade.

Depois de cruzar a ponte sobre o Ribeirão das Galinhas, entramos em Olhos d’água pela sombreada Avenida Castro Alves.

Eram 10h30 e estávamos com oitenta quilômetros de pedal, ou seja, faltavam cerca de quarenta quilômetros para chegarmos ao nosso destino. Se mantivéssemos o mesmo ritmo, antes das 14 horas já teríamos concluído a trilha. Paramos no Cantinho do Café para lanchar. Eles servem café, pão de queijo, sucos naturais, etc. Aproveitei para reabastecer o camelbak.

Saímos de lá às 11 horas, passamos pela Igreja de Santo Antônio antes de voltar à estrada.

Depois de Olhos D’água, a trilha ficou mais difícil e a paisagem mais bonita. Primeiro descemos para cruzar o belo Rio do Ouro.

Passamos por casas de fazenda na baixada e, por uma estrada erodida no meio da pastagem, escalamos a vertente direita do vale do Rio do Ouro. Subida técnica, pedalável na maior parte, mas em alguns trechos tivemos que levar a bicicleta no ombro para passar.

No final dessa estradinha erodida, alcançamos uma estrada em melhores condições e continuamos por ela. Estávamos nos domínios da Fazenda Santa Mônica, do ex-senador Eunício Oliveira. Ele tem um enorme latifúndio na área. A propriedade estende-se pelos municípios de Alexânia, Corumbá de Goiás e Abadiânia, tem mais de 30 mil hectares e foi adquirida de formas não muito republicanas. Veja o documentário “Passarim”, de Camila Freitas (https://vimeo.com/112022804), para entender melhor essa história.

Continuamos subindo e pedalamos alguns quilômetros pelo alto, até pegar à direita e descer para o Ribeirão Congonhas, o local de mais baixa altitude dessa trilha. Logo depois de cruzar o rio, paramos numa casa para pedir água. O Lisboa adora pedir água nas casas do caminho e é tão cara de pau que já chega pedindo água gelada. 🙂 O coitado do sitiante já nem tinha mais água gelada. Disse que os ciclistas que passaram antes tinham tomado tudo. Mesmo assim, ainda conseguiu dois litros que dividimos.

Saindo de lá, mais uma longa e desafiadora subida confrontou-nos na vertente direita do vale do Congonhas. Pelo menos a paisagem era bonita. Bons trechos de cerrado e alguns eucaliptais fizeram sombra pelo caminho. Alcançamos o alto de uma chapada 4,5 quilômetros depois do Congonhas. Foram duzentos metros de ganho de altitude. Emídio sofreu para concluir essa subida. Ele estava com câimbras.

No alto, pedalamos mais alguns quilômetros até chegar ao bar da Dona Libertina. Não tire conclusões precipitadas, leitor afobado. Libertina é o nome de batismo da proprietária. Já não tinha mais água mineral para vender, só do poço, e estava amarelada. Eu ainda tinha bastante água, mas como o clima estava muito quente, aproveitamos a parada para tomar um Guaraná Antarctica.

Saindo do bar, pedalamos mais um pouco pelo alto até pegar estrada à esquerda. Adentramos uma bela área de mata e descemos a vertente esquerda do vale do Rio Corumbá. Ponte de madeira em bom estado de conservação facilita a travessia e também permite observar a beleza do rio.

Do outro lado, tome subida. Foram 2,5 quilômetros até chegar ao asfalto da GO-338. Esse trecho é bastante sombreado, seja pela mata ciliar do Corumbá, no início, ou por outros trechos de floresta.

Cheguei à rodovia com Lisboa. Havia um subgrupo lá, esperando um ciclista que encontramos na beira do rio. Nós ficamos esperando Emídio, que demorou bastante. Deu até pra tirar uma soneca no chão “macio”.

Quando Emídio chegou, continuamos a jornada. Pedalamos pela rodovia no sentido de Abadiânia por 2,5 quilômetros, até entrar à direita. Descemos a vertente esquerda do vale do Ribeirão Cariru e finalmente enfrentamos a última subida da trilha, pela vertente direita. Mais 2,5 quilômetros de subida com 6% de inclinação média. De tanto ficar parando, eu já estava fritando.

Vencemos a última subida, e com a chegada de Emídio, descemos para a cidade. Finalmente, Posse d’Abadia apareceu no horizonte. Quando se começa a descer, da estrada é possível avistar a cidadezinha, às margens do Córrego da Posse, com seus dois prédios notáveis: a Igreja de Nossa Senhora d’Abadia e a subprefeitura.

Enquanto eu parei para tirar fotos, Emídio e Lisboa seguiram em frente, mas esperaram-me na entrada de Posse. Assim, às 16 horas, entramos juntos na cidade e comemoramos a vitória de concluir esta sofrida trilha. Fomos recebidos pelo João Campos, que estava recepcionando os ciclistas que chegavam.

Lisboa, Emídio e Evandro chegando em Posse d’Abadia

A primeira van já tinha voltado para Brasília. Nosso resgate, Nilton Júnior, genro do Emídio, já tinha chegado.

No total, pedalamos 121 quilômetros, com 2.415 metros de subida acumulada.

Mesmo com fome, preferimos tomar banho antes de almoçar. Fernando e João conversaram com o subprefeito de Posse d’Abadia, Carlos Roberto Diniz Júnior, que liberou os banheiros da subprefeitura.

Praça central de Posse d’Abadia vista do alto do terraço da subprefeitura, com a Igreja de Nossa Senhora d’Abadia ao fundo.

De banho tomado, fomos almoçar. Na semana anterior, pagamos antecipadamente pelo almoço no restaurante da Dona Regina. A proprietária prometeu-nos que haveria comida o dia todo. Mas, quando fomos comer, só havia uns pedaços de osso do tal frango caipira, e restos de macarrão, arroz e feijão. Perguntei para a cozinheira se ela reporia a comida, mas não havia mais nada. Ela disse que o pessoal que chegou cedo comeu mais de uma vez, e quem chegou por último ficou sem, e que já não havia mais carne para vender no mercado. Eu já ia desistindo de comer e pedindo meu dinheiro de volta quando ela disse que poderia fritar uns ovos. Foi a minha salvação.

Fernando Marques e João Campos (Coronel)

E depois de comer, partimos de volta para Brasília.

Parabéns aos organizadores, João Campos e Fernando Marques. Foi uma aventura muito bem organizada e, como sempre, sem fins lucrativos, trabalho voluntário feito para reunir os amigos e pedalar juntos. Até a próxima!

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