Pico Agudo (Ybiangi) – 31/01/2024

Sapopema, 31 de janeiro de 2024.

Tracklog: https://www.strava.com/activities/10673151967

Eu acho que toda pessoa que gosta de viajar tem uma lista de “lugares a visitar”. A minha é bem grande, não existe fisicamente, só em minha cabeça, e varia ao longo do tempo. No Paraná havia dois lugares pendentes há muitos anos. O primeiro era o Salto do Apucaraninha, cuja visita eu consegui realizar no dia 24, o próximo da lista era o Pico Agudo.

Como nós só tínhamos mais alguns dias de férias, tive que me planejar para ir no meio da semana. Convidei minha companheira de vida e de aventuras:

– Leidiane, você vai encarar? Segundo o Wikiloc, são 2.200 metros de subida.
– Não vou. Eu não aguento trilhas com 2 mil metros.
– Mas não são 2 mil, são apenas 1.900 se descontar a subida do pico, que tem 300 metros. E a trilha é curta, apenas 68 quilômetros. Vamos sem pressa, “de boa”. Cola em mim que o sucesso é garantido!
– Tá bom.

“Bem aventurados os que seguem os loucos, pois terão prioridade no resgate.”, Etílicos 1:14.

Viajamos para Sapopema de carro na terça-feira. Foram 140 quilômetros de bom asfalto pela PR-090. Chegamos no começo da noite e nos hospedamos no Hotel e Restaurante Dona Zora, no centro da cidade. Compramos provisões para o dia seguinte numa padaria e depois jantamos no Dona Zora.

Ybiangi, o Pico Agudo

Pico Agudo ou Ybiangi. Foto: Sérgio Mendonça Júnior

O Pico Agudo, ou Ybiangi, é um dos pontos mais altos do Norte do Paraná, com 1.170 metros de altitude acima do nível do mar, segundo o IBGE, ou 1.200 metros, segundo os proprietários da área. Ele é o ponto culminante da Serra dos Agudos, um conjunto de morros escarpados localizado na zona de transição entre o Segundo Planalto Paranaense (Planalto de Ponta Grossa) e o Terceiro Planalto Paranaense (Planalto de Guarapuava).

“Pico Agudo” é a denominação moderna do morro pontiagudo que os indígenas chamavam de Ybiangi, cartografado em mapas antigos da América desde 1632 com seu nome original, cujo significado provável é “rio de encostas erguidas” (ibiã: ladeira, encosta, chapada; ji: rio).

O Ybiangi é um morro largo na base, onde está coberto de mata, que vai se afunilando até o cume, onde a rocha está exposta. É como um funil invertido. Seu formato é único e inconfundível. O cume é relativamente plano, com cerca de duzentos metros de comprimento por trinta de largura.

Devido à sua proeminência, é considerado um farol orográfico, pois sua distinção em relação ao entorno torna-o visível a longa distância, sendo usado como sinalizador para deslocamento e localização. A orografia é um ramo da geografia que estuda as montanhas.

O Caminho do Peabiru cortava o Estado de leste a oeste e contava também com ramais norte-sul. Por estas rotas ancestrais, criadas e usadas pelos indígenas, avançaram conquistadores ibéricos, bandeirantes, naturalistas e pesquisadores, sendo o Pico Agudo um ponto inconfundível na paisagem, usado pelos viajantes para orientarem-se pelo vasto interior. Na função de farol, o Pico Agudo guiou figuras importantes que cruzaram o Paraná, algumas eu diria até lendárias, como Aleixo Garcia, Cabeza de Vaca e Fernão Dias (veja a imagem ao lado). 

Para saber mais e expandir seu conhecimento sobre o Ybiangi, leia o artigo de Henrique Paulo Schmidlin.

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Parte 1: a ida

Acordamos às 5 horas, improvisamos o café da manhã pois não poderíamos esperar o do hotel, e partimos às 6h30, já com dia claro.

Saímos da cidade pelo oeste, atravessamos a PR-090 e entramos numa estrada com calçamento irregular. Há duas pontes sobre o Rio Lajeado Liso neste ponto, bem próximas, uma na rodovia e outra na estrada rural. A três quilômetros da cidade está a Pousada Salto das Orquídeas. É por ali que se tem acesso ao Rio Lajeado Liso e ao Salto das Orquídeas, cachoeira de aproximadamente cinquenta metros de altura, e várias outras quedas. Logo depois, o calçamento terminou e a partir dali o percurso foi por estrada de chão.

Logo à frente, uma placa indicava a direção do Passo do Meio. Há duas travessias pelo vau do Rio Lajeado Liso que encurtariam o nosso caminho. Na região, os vaus são chamados de “passos”. Se seguíssemos por tal caminho, passando pelo Passo do Meio e pelo Passo do Arruda, economizaríamos 1.800 metros e um pouco de subida, mas, como choveu muito nos últimos dias, poderíamos encontrar dificuldade para passar por algum deles devido ao nível do rio. Optei por seguir o caminho sem vaus.

Seguimos pelo caminho mapeado, desviando do rio pelo norte. A estrada passa por uma floresta de eucaliptos.

No ponto mais alto dessa volta pelo norte do Lajeado Liso há uma bifurcação, na qual seguimos para o sul, para o Bairro Mambuca. Logo que se começa a descer, abre-se linda vista do vale da Água das Araras. O sol ainda não tinha iluminado o fundo do vale, que ainda tinha um pouco de neblina.

Água das Araras

Quando chegamos ao Bairro Mambuca, bem em frente ao Bar do Nicomedes, encontramos a primeira placa indicando o caminho para o Pico Agudo e logo depois o avistamos. Dali em diante ele esteve presente na paisagem quase o tempo todo, cumprindo bem sua função de farol orográfico. 

Apesar da bela paisagem que nos rodeava, Leidiane não gostou muito do piso das estradas que percorríamos. O cascalho grosso fazia-a perder o equilíbrio constantemente. Não chegou a cair, mas tinha que colocar o pé no chão de vez em quando.

Ao passar por uma fazenda, o terror de Leidiane apareceu: avistamos, de longe, uma vaca solta na estrada. Uma moto, que vinha no sentido contrário, parou e passou com muito cuidado. Imaginei que fosse brava, então fizemos o mesmo. Fomos devagar, assobiei para avisá-la da nossa chegada. A vaca nos viu, virou-se e voltou. Logo à frente estavam as colegas da nossa bovídea solitária, várias, ocupando a estrada. O dono do rebanho estava por lá e veio falar conosco. Ele explicou que o gado tinha estourado uma cerca durante a noite, por isso estava solto. O gentil boiadeiro passou pela porteira e disse que iria nos ajudar a passar, mas os animais voltaram por conta própria e entraram no pasto. Despedimo-nos do benfeitor e seguimos nosso caminho.

Logo depois, aos dezesseis quilômetros de trilha, encontramos outra placa indicando o pico, bem de frente para ele. Segundo nosso amigo boiadeiro, os ciclistas da cidade costumam vir até ali, tiram uma foto e voltam.

Nós continuamos e descemos pelo vale do Rio Lambari, bem profundo, mas com belas vistas. Foi aí que pedalamos pela ladeira mais íngreme de toda a trilha. Saímos do vale passando pelo Sítio João de Paula. Só reencontraríamos o Lambari no final do dia.

A partir daí o Pico Agudo escondeu-se atrás da Serra Chata. Fiquei preocupado, imaginando se teria que transpor aquela montanha para chegar ao pico.

Contornando o vale da Água da Limeira (ou Palmital), passamos por um trecho muito bonito. O vale de bordas íngremes com bastante mata estimulou o empreendedorismo dos proprietários rurais que construíram pousadas e chalés, aproveitando a vista e o clima.

Com 28 quilômetros pedalados, chegamos ao Assentamento São Luiz II. Leidiane já dava sinais de cansaço e ficou contrariada quando eu disse que não seguiríamos para “Sapopema – Centro”, à direita, como indicavam as placas, mas para o Pico Agudo, à esquerda.

Atravessamos o cristalino riacho Água da Limeira pelo vau, bem raso, e entramos na Fazenda Zamarian, onde está a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Fazenda Inho-ó, que foi criada no ano 2000, com 441 hectares.

A estrada, que vinha da direção noroeste, faz curva para o sudoeste. Logo passamos por uma placa que indicava nosso destino a sete quilômetros. A muralha da Serra Chata crescia à medida que avançávamos. Será que a enfrentaríamos?

Este percurso tem uma característica curiosa. Apesar de estarmos seguindo na direção do Rio Tibagi, o grande rio do Norte do Paraná, nós subimos muito para chegar ao Pico Agudo, que fica bem próximo ao rio.

O Ybiangi, tímido, mostrava-se às vezes, quando a Serra Chata saía da frente.

Serra Chata (esquerda) e Pico Agudo (direita)

Depois de uma boa descida, subimos pelo meio de uma floresta de eucaliptos. Depois a estrada levou-nos para dentro da mata nativa e contornamos a Serra Chata pelo norte. Quando saímos da floresta, o Pico Agudo revelou-se por inteiro. Aquele gigante ali pertinho, mostrando toda sua imponência, desafiava nosso ânimo.

O lado nordeste do Pico Agudo

Leidiane estava cansada e começou a reclamar: “Não chega nunca!” Ela já estava sem água e eu tinha pouco, por isso comecei a economizar. Já avistávamos a recepção na base do morro, mas a expressão de cansaço de Leidiane fez acender-se uma luz amarela em minha cabeça, prevendo dificuldades.

Mais alguns quilômetros pedalados e chegamos, às 10h30, à recepção da RPPN Fazenda Inho-ó. Na recepção tem água à vontade, bebidas para vender, área de estacionamento e banheiros. A água vem de uma mina, e está disponível nas torneiras. Matamos nossa sede, que era grande, e enchemos nossos reservatórios. Descansamos um pouco antes de começar o trekking. Leidiane melhorou o humor depois de se reidratar.

Começou aí a segunda parte de nossa aventura.

Parte 2: o trekking do Pico Agudo

A ascensão ao cume do Ybiangi tem três fases distintas. Na primeira fase caminha-se por trilha sombreada, na mata que circunda o morro. A segunda fase é um pouco mais íngreme, sem sombra, pela borda do morro. A terceira fase é a escalada do cume, esta sim, mais difícil.

É preciso pagar entrada e contratar um guia.

Tiramos as sapatilhas, calçamos nossos tênis, guardamos as bicicletas num local seguro e começamos o trekking às 10h45. A trilha começa atrás da recepção, entra pela floresta que circunda o morro e é bem marcada. Vai subindo aos poucos, na sombra, mas a alta umidade da floresta me fazia suar em bicas. Algumas placas registram a distância percorrida. Subimos em ritmo forte pois tínhamos que voltar pedalando para Sapopema, então não podíamos perder tempo. É uma trilha muito agradável e uma boa oportunidade para conhecer os detalhes da floresta, como os troncos de árvores mortas cheios de fungos brancos (orelha-de-pau?) que encontramos.

Ao sair da floresta, entra-se na segunda fase. Acaba o conforto da sombra, mas bate um ventinho para compensar. Aqui já se tem belas vistas do entorno. Pelo que vi, há duas opções de percurso. Nós seguimos pela Trilha do Bugio, um pouco menos íngreme que a outra opção, mas que também tem alguns curtos trechos com cordas e correntes para apoiar a subida. Ziguezagueia-se pela borda do morro evitando enfrentar o aclive diretamente.

Finalmente, ao passar por uma pequena árvore, chega-se à terceira fase de ascensão. O solo desaparece, dando lugar aos paredões de rocha bruta. Antigamente, quando o acesso ao local não era controlado, a escalada dava-se com uso de cordas. Agora há correntes, cordas e até uma escada de vergalhão, a qual facilita muito a subida. Eu subi pela corrente. É como caminhar na parede, puxando-se para cima com a força dos braços, agarrando-se na corrente. Leidiane não conseguiu subir pela corrente e usou a escada, muito mais fácil.

Chegamos ao cume às 11h45, com uma hora de trekking. Foi difícil, mas eu esperava bem mais dificuldade, pois os relatos das pessoas que visitaram o Pico Agudo eram mais “assustadores”. A sensação de chegar a um lugar há tempos almejado é muito boa. Nossos ânimos se renovaram.

O cume

Que visão! No seu lado oeste, o Pico Agudo tem paredões bastante verticais, permitindo avistar, do alto de seus 1.170 metros de altitude, sem intromissões na paisagem, o vale do Rio Tibagi, que é magnífico neste trecho. O Tibagi escorre soberano por sua calha, num cânion afunilado, quase setecentos metros mais baixo que o cume do Ybiangi. Essa enorme diferença de altitude proporciona vistas espetaculares. Ali estão as famosas Corredeiras do Inferno, temido obstáculo natural enfrentado pelos exploradores que adentravam o Paraná navegando pelo rio. Pode-se, também, ver algumas ilhas.

Vista desde o alto do Pico Agudo. Rio Tibagi, Serra Grande (esquerda), Morro do Taff (centro) e Boqueirão do Tibagi (passagem entre os dois maciços).

Do outro lado do rio, a sudoeste, está a Serra Grande, ou Chapadão do Tibagi, cobrindo quase toda a vista nesta direção, com mais de seis quilômetros de extensão. Ao sul, também na margem esquerda do rio, estão o Morro do Meio e o Morro do Portal. A noroeste, onde o Tibagi faz curva, está o Boqueirão do Tibagi (saída do cânion) e o Morro do Taff (Morro do Paredão) na margem direita. Do lado leste do pico, está a Serra Chata (a que contornamos). Este conjunto de morros e serras é chamado, em conjunto, de Serra dos Agudos ou Agudos do Tibagi.

Vista desde o alto do Pico Agudo. Da esquerda para a direita: Morro do Portal, Morro do Meio e Serra Grande.
Fonte: Alta Montanha – Paulo Henrique Schimidlin

Ao sul do pico há uma torre menor, apartada, o que os alpinistas chamam de “agulha”. Ela foi batizada, em 2011, pelos alpinistas Andrey Romaniuk e Alessandro Haiduke, como “Agulha Reinhard Maack”, homenagem ao naturalista e geólogo alemão, considerado o primeiro explorador do Pico Agudo. A história de vida de Maack é impressionante. Leia!

Na primeira pisada no cume, um enxame começou a voar em nossa volta. Apesar de incomodarem, voando e pousando em nossos rostos e cabelos, elas não ferroavam. Disse para Leidiane: “Não se preocupe, são abelhas sem ferrão.” Continuamos nossa exploração do cume, mas logo senti uma ferroada de uma delas e percebi que não eram abelhas sem ferrão. Disse novamente: “Leidiane, preocupe-se pois são vespas.” As vespinhas pretas não ferroaram Leidiane, apenas eu levei duas. Afastamo-nos das colônias e elas nos deixaram, quase, em paz.

Caminhamos pelo cume, conhecemos os pontos mais incríveis. Analisei com atenção aqueles paredões verticais. Lembrou-me o Monte Roraima.

No topo há um caderno para os visitantes assinarem, mas bem no local onde ele foi colocado, dentro de um tubo fixado numa rocha, havia uma colônia de vespas e era impossível permanecer ali. Não conseguimos assinar.

Nosso plano era lanchar no cume, mas com o ataque das vespas a todo momento, preferimos descer e encontrar outro lugar, então, começamos a voltar. Paramos numa árvore, bem na transição da terceira para a segunda fase. Sentamo-nos à sombra e comemos nossos lanches. Às 12h30 recomeçamos a descida e às 13 horas já estávamos de volta à recepção.

Na recepção, reabastecemos nossos reservatórios e molhamos o corpo para espantar o calor. Enquanto Leidiane descansava, eu preparei as bicicletas para a volta.

Parte 3: a volta

Confesso que subestimei a volta. Depois de tanto subir para chegar ao pico, imaginei que a volta seria “mamão com açúcar”. Além disso, teríamos oito quilômetros de asfalto para voltar à cidade, na PR-090, que passamos na véspera, quando eu confirmei que era, quase, só descida. Leidiane jurava que viu muitas subidas.

Até o Assentamento São Luiz II, o percurso seria o mesmo da ida, contornando a Serra Chata. 

Às 13h30 partimos da recepção do Pico Agudo. O primeiro desafio da volta foi sair do vale entre o Pico Agudo e a Serra Chata. Leidiane sentiu o peso da trilha e começou a empurrar nas subidas mais íngremes. Ela continuava reclamando do cascalho. Meu GPS parou de funcionar antes de sairmos da mata. Felizmente, havia placas pelo caminho e eu ainda tinha o tracklog no celular, para uma emergência.

Saímos da Fazenda Zamarian e chegamos ao assentamento pouco depois das 14 horas. Ao passar pela frente da escola rural, Leidiane viu um bebedouro refrigerado. Entramos e pedimos autorização a dois professores que estavam por lá, preparando a escola para o início do ano letivo, para pegar água. Apesar da água geladinha, um dos professores nos desanimou. Perguntei: “Ainda tem muita subida até o asfalto?”. E ele respondeu: “Vixe! Agora é que começa a subir.”

Eu não acreditei nele. Pessoas que não pedalam sempre dão opiniões erradas sobre a quantidade de subida de um caminho. Felizmente, inventaram a altimetria acumulada, medida absoluta que resume bem o desafio enfrentado em subidas. Se ele dissesse que dali até o início do asfalto faltavam 553 metros de subida, ou altimetria acumulada, ficaria mais fácil de acreditar. Pois era o que faltava. É muita subida para um final de trilha, com os ciclistas já cansados.

Saindo do assentamento, cruzamos o córrego Água do Limoeiro e enfrentamos uma grande subida, com 232 metros de altimetria em 3.800 metros. Leidiane voltou a sorrir, não sei por quê.

Cruzado o interflúvio, descemos até o córrego Água do Gustavo, torcendo para que não houvesse mais subidas, mas um caminhão que passou por nós um pouco antes acabou com nossas esperanças. Ouví-lo engrenar a primeira marcha para subir a ladeira causou-nos dor no coração.

A ponte sobre o Rio Lambari, aquele do vale profundo que passamos de manhã, está na mata ciliar compartilhada entre ele e a Água do Gustavo. Ali começou outra impiedosa subida. Logo encontramos várias casas, pousadas e comércios, e chegamos ao centrinho do Bairro Lambari. Paramos numa mercearia para tomar coca-cola gelada. Foi Leidiane que perguntou desta vez: “Ainda tem muita subida?” E os donos do bar entraram em contradição: o dono disse que sim, e a dona disse que não. Eu acho que ela ficou com pena.

A subida, que começou no Rio Lambari, continuou. Essa foi brava! Foram 321 metros em 6 quilômetros. Depois de uma curva fechada, parei para esperar Leidiane numa sombra. Foi quando ouvi uma voz trêmula ao longe, chamando-me: “Evaaannndro?” Gritei: “Tô aqui.” A luz amarela de minha cabeça ficou vermelha. Leidiane vinha empurrando e chorando: “Eu não aguento mais pedalar. Não para de subir e essas pedras me fazem desequilibrar o tempo todo. Vai buscar o carro e vem me buscar.” Tenso!

“Não sabendo que era impossível, foi até lá e soube.” Etílicos 4:32

Tentei acalmá-la: “Descansa. Falta pouco. Você consegue.” Ela disse que não estava cansada, mas a trilha sem fim afetou seu psicológico. Subimos juntos, empurrando as bicicletas. Para nosso alívio, foi a última ladeira. Quando começamos a descer, em menos de um quilômetro chegamos ao asfalto. Leidiane nem parou, entrou no asfalto e foi descendo pela pequena faixa de acostamento, quase inexistente. Corri atrás e pedi que ela me seguisse, pela pista, e fiquei de olho no trânsito em nossa retaguarda. Levamos 15 minutos para percorrer 7,5 quilômetros até Sapopema. Como eu havia dito, foi quase só descida, com pequenas subidas que vencemos facilmente com ajuda da inércia.

Terminamos a trilha em frente ao hotel. Foram 72 quilômetros de pedal com 1.990 metros de altimetria acumulada.

Antes de voltar para Sertanópolis, tomamos açaí numa lanchonete ao lado do hotel. Voltamos rápido para Sertanópolis pois, de noite, ainda teríamos a festa de aniversário de minha irmã Héllen, exatamente no dia 31.

2 comentários sobre “Pico Agudo (Ybiangi) – 31/01/2024

  1. Que loucura!!! Gostei da citação “bíblica” bem no início do pedal…Bem aventurados os que seguem os loucos”…..essa é nossa bem- aventurada amiga Leidiane!! Parabéns pela loucura…

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  2. Evandro, é impressionante a resiliência da Leidiane… e ela mostrou que confia em você viu… kkkk… Sensacional o relato, como sempre! Que Deus dê a vocês dois muita saúde para percorrer muitos outros destinos. Forte abraço!

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