Trekking Córrego Fundo – Botucatu/SP – 02/04/2006

por Evandro Torezan

Botucatu, 2 de abril de 2006

A moça do tempo, do jornal local, disse que iria ser um ótimo domingo: “Dormir de cobertor e, durante o dia, passear sem agasalho.” Ela acertou na mosca. O dia estava lindo, sem nenhuma nuvem no céu, prometendo ser dia de sol implacável. Também era dia de estrear meu novo boné, com protetor de nuca e orelhas, detalhe importante, como veremos à frente.

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Foi a segunda prova do ano do Campeonato Pró-Cuesta e, como em 2005, foi realizada no Sítio São Francisco de Assis, a dez quilômetros do centro de Botucatu. Local belíssimo, mas extremamente acidentado, o que torna as provas difíceis para os menos preparados fisicamente.

Sítio São Francisco

O Ricardo passou em casa às 7h30 da manhã. Jefferson e Daniel logo chegaram também e fomos para o sítio. Fomos uma das primeiras equipes a chegar.

A nossa prova começou às 9h03. Fomos a segunda equipe a largar, atrás apenas da vitoriosa Equipe Nikus, que desde 2004, pelo que soube, vinha ganhando o campeonato Pró-Cuesta e outros campeonatos pelo Brasil, sendo considerada a melhor equipe de trekking do país.

A prova começou no platô onde fica a sede de sítio, de onde se vê grande área da parte baixa do município de Botucatu, até os limites com São Manuel.

Quando partimos, fiquei com vergonha de colocar meu vistoso boné no meio da multidão. Parti sem a proteção de nuca. Após alguns metros de caminhada, saquei o protetor do bolso e coloquei-o no boné, fixando os botões de pressão. Numa competição onde pequenos detalhes fazem grande diferença, colocar o protetor naquele momento custou-nos a prova. Enquanto fixava os botões, passei despercebido por duas referências de passagem e mesmo achando estranho passar por uma ponte sem encontrá-la na planilha, continuamos caminhando pela estrada. Quando percebi o erro, estávamos perdidos, sem saber para onde ir. Corri para a frente e para trás na estrada mas só localizei-me quando a Quatrilha, equipe subsequente, chegou e deu-nos uma luz. Estávamos no caminho certo mas não encontrávamos por onde sair da estrada. Quando encontramos um buraco na cerca e entramos por ele encontramos a trilha. Poucos metros depois encontramos um PC. Perdemos aí 200 pontos.

A trilha seguiu pelo meio da mata ciliar do Córrego São Caetano, também conhecido por Córrego Fundo, a jusante, e desceu até entrarmos no leito. Seguimos rio acima até uma grande cachoeira com mais de 30 m. É a Cachoeira da Serra do Córrego Fundo.

Pudemos ficar apreciando a queda durante exatos cinco minutos. O rio sofre com a proximidade da cidade, trazendo lixo dos bairros a montante. Porém, como o leito do córrego é profundo, a mata ciliar está preservada e torna esse vale um dos mais belos cenários de Botucatu.

Saímos da cachoeira e descemos o rio cerca de 150 m, onde enfrentamos o trecho que mais exigiu do físico dos participantes: tivemos que subir a margem esquerda do córrego, coberta de mata e extremamente vertical, ajudados por cordas. Tínhamos 25 minutos para vencer duzentos metros de paredão. Subi rápido, deixando meus colegas de equipe para trás, que paravam para descansar de vez em quando. Fui encontrando os integrantes da Equipe Nikus largados pelo caminho. Um deles estava muito cansado e, deitado no meio da trilha, dizia: “Podem ir. Eu não estou preparado para isso.”

Terminei a subida em 10 minutos e fiquei rindo da cara de cansaço das pessoas que iam chegando, a maioria acabados. Uns jogavam-se na grama e diziam que ficariam por ali. Realmente foi difícil. Foram vários metros de corda que exigiram muito dos braços, e metros e metros de terreno vertical, cheio de obstáculos pelo caminho, com troncos caídos, buracos e trilhas cobertas de folhas secas que a deixavam escorregadia. Escorregar ali poderia levar-nos literalmente para o buraco.

Foto da equipe Pé na Trilha em 2005, na mesma região.

Depois dos 15 minutos que fiquei ali esperando, reiniciamos a prova. Caminhando à margem da mata, chegamos ao PC visual: teríamos que adivinhar a distância entre nós e uma árvore seca. Quando chegamos a Equipe Nikus discutia com o PC pois alguém da disse que a medida era duzentos metros e o PC rapidamente digitou a medida em seu Totem e registrou, mas eles ainda estavam chegando a uma conclusão e queriam que ele alterasse a medida. Nós, sem tempo a perder, confiamos na certeza do Daniel: 110 m. Mesmo assim ainda erramos por onze metros.

Mais alguns metros pelo pasto e chegamos a um conjunto de cupinzeiros que tinha o formato da constelação Cruzeiro do Sul.

Entramos novamente na mata só que agora foi um trecho bem curto. Entrando na mata senti um cheiro agradável e familiar: o solo estava forrado de hortelã. Foi uma prova aromática. Além do hortelã, teve também um boi morto no rio, perto da cachoeira, deixando insuportável cheiro de carniça no ar.

Dali, por trilhas no mato, descemos o morro escorregando no capim seco. Depois, terminamos de descer o morro pelo pasto, até voltar ao rio, que cruzamos. Assim, chegamos ao neutral.

No neutral, como sempre, aquela festa entre melancias, bananas, laranjas, piadas e lorotas. Este descanso acabou com a Nikus. Ao saírem do neutral, tomaram rumo totalmente errado. Nós ficamos olhando aquilo e tentando entender porque estariam indo por lá. Quando nos preparávamos para sair, Fernando Arena, organizador do campeonato, chegou de moto. Eu, inocentemente, disse-lhe: “Você sabe por que a Nikus foi por ali?” Quando ele ouviu isso saiu rapidamente atrás deles com a moto. Achei aquilo incorreto. Ele deveria deixar que ele se encontrassem.

Área percorrida durante a prova

Pelo caminho correto recomeçamos a prova. Passamos por um estábulo e margeando a cerca de uma pastagem, chegamos num pequeno riacho, por onde seguimos pelo leito por alguns minutos. Quando deixamos o riacho, começamos a subir a escarpa direita do vale do Córrego São Caetano. Inicialmente, foi um trecho confuso no meio de capoeira alta, com trilhas mal definidas. Mesmo assim passamos sem erro. Por esse misto de pasto e capoeira, chegamos num local onde tivemos má experiência no ano anterior: o pé de morro onde perdemos um PC e, por conseguinte, a prova. Mas dessa vez, não erramos. Subimos o morro com precisão. Nesse ponto, marcado pelo grande número de referências com bússola, a minha concentração era tão grande que, segundo meus colegas, quase pisei no pé de um PC e não o vi. Foi aí também que a Equipe Nikus perdeu-se. De repente, não mais os vimos em nossa frente e, do topo do morro, já entrando na mata, vimo-los perdidos no meio do morro, totalmente fora do caminho.

Entramos na mata. Era o mesmo caminho feito no ano passado mas ao contrário. Como pioneiros fomos derrubando espinheiros e teias de aranha. Foi longo e agradável trecho na mata. Quando terminou, descemos aproximadamente 70 m até a entrada do sítio e terminamos a prova.

Devido à confusão inicial, não esperávamos ganhar. Porém, para nossa surpresa,  foi uma das melhores provas de nossa história. Quando terminamos a prova tínhamos consciência disso, mas não esperávamos tanto. Fizemos 386 pontos. Quando recebemos a ficha tínhamos certeza da vitória, mas a zebra estava solta. A equipe Onkovo, que como o próprio nome diz, sempre estava perdida, fez 365 pontos e tirou-nos a chance de ficar em primeiro lugar. O pior de tudo é que dos nossos 386 pontos, duzentos foram perdidos apenas no segundo PC, culpa do maldito boné com protetor de nuca.

De consolo, ficamos em primeiro lugar no campeonato. Valeu demais!

Um comentário sobre “Trekking Córrego Fundo – Botucatu/SP – 02/04/2006

  1. Sensacional Evandro. Você escreveu um diário na época (e não nos contou). Porque depois de exatos 13 anos, eu não lembrava nem que eu tinha participado dessa prova, muito menos dos detalhes. Bons tempos aqueles, deixaram saudades. Felicidades para você (e demais colegas que certamente lerão esse depoimento). E continue enviando esses relatos históricos.

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