Caminho do Parati, Estrada das Gaivotas e Caminho Ecológico do Guaraguaçu – Litoral do Paraná

por Evandro Torezan

Matinhos, 28 de dezembro de 2006

https://www.wikiloc.com/mountain-biking-trails/volta-das-gaivotas-estrada-ecologica-ate-primeira-aldeia-38330143

Pontal do Paraná é um dos mais novos municípios do Estado. Foi desmembrado de Paranaguá em 1995 e herdou toda a faixa litorânea que vai de Praia de Leste até a Baía de Paranaguá. A área urbana, composta principalmente por casas de veraneio, desenvolveu-se à beira mar, tem vinte quilômetros de comprimento e aproximadamente 1,5 km de largura. O resto da área do município é coberta de mata nativa.

De férias, pegando praia, levei a bicicleta para explorar a região. Minha primeira tentativa foi na quinta-feira. Saí depois do almoço e fui procurar a Estrada Rural das Gaivotas, caminho antigo que ligava a PR-407 ao Município de Matinhos.

Saí do apartamento onde estava hospedado, peguei a PR-412, rodovia que se estende por todo o litoral paranaense, e segui sentido Matinhos até o Balneário Albatroz. Fui perguntando nas casas e comércios até encontrar a estrada. No início, areia firme e algumas casas no entorno, depois, trechos de mata nativa, algumas florestas de pinus, capoeira e muito areião.

Estrada das Gaivotas

Segui aos trancos e barrancos, tentando pedalar na areia fofa. Encontrei alguns sítios e algumas lagoas que aparentam serem lavras de areia.

A estrada de areia terminou na PR-407, próximo ao Rio Pery, onde há um posto da Polícia Rodoviária Estadual. Até ali, pedalei pouco mais de cinco quilômetros. Eu pensei que a estrada continuava do outro lado da rodovia, mas não. A linha que eu havia visto no mapa era o canal do Rio Pery. Como meu objetivo era chegar ao Balneário de Canoas por dentro da mata, perguntei numa banca de frutas se haveria outro caminho. O dono da banca disse-me que conhecia um caminho até o Balneário Shangri-lá e explicou-me como encontrá-lo.

Segui por dois quilômetros pelo asfalto, em direção à PR-277. Chegando ao Rio Guaraguaçu, entrei à direita.

Rio Guaraguaçu

A estrada margeia o rio. Próximo ao asfalto há casas e chácaras mas, conforme se avança pela estrada, as construções vão rareando. Conforme avancei, a mata foi ficando cada vez mais fechada.

Eu não sabia exatamente quantos quilômetros teria que percorrer para chegar a Shangri-lá. Fui adentrando na floresta. Poças d’água dificultavam a passagem. Fiquei surpreso quando encontrei três pessoas caminhando à minha frente, e mais surpreso ainda quando me aproximei e vi que eram índios. Conversei com eles. Disseram não serem nativos da área e que vieram de Santa Catarina para morar ali, onde construíram aldeia ao lado de um sambaqui (depósitos de conchas que eram utilizados pelos índios como lixeira e até cemitério). Eles disseram que eu estava no caminho certo e que deveria pegar a primeira estrada à direita.

Logo encontrei uma estradinha, mas achei tão estreita que não entrei nela. Segui mais alguns quilômetros e cheguei à aldeia dos índios.

Então, voltei e entrei na estrada estreita. Parecia abandonada, com árvores caídas, troncos de palmito derrubados, lama e poças d’água. A estradinha fechava cada vez mais e acabou fazendo-me desistir. Além disso, eu não sabia se estava no caminho certo.

Fiz o caminho de volta. Parei na banca para agradecer ao rapaz a indicação da trilha. Ele disse que eu estava no caminho certo e que a estrada realmente está abandonada. Disse também que há um projeto de transformar esse caminho num roteiro turístico chamado Estrada Ecológica do Guaraguaçu. A estrada foi construída nos anos 1950, ligando Pontal do Sul a Paranaguá por terra. Como pavimentação, usou-se conchas dos vários sambaquis existentes na área. Pode isso? Pense na quantidade de artefatos arqueológicos que podem ter sido perdidos nessa ação.

Continuei pedalando pela PR-407 até Praia de Leste e de lá voltei ao Balneário de Gaivotas.

Foi uma grata surpresa percorrer essas estradas do litoral paranaense e ver que ainda existe muita mata preservada, longe da badalação dos balneários e das praias lotadas de veranistas. Foram 35 km de pedal.

Matinhos, 2 de janeiro de 2007

Primeiro pedal de 2007. Fomos todos visitar Pontal do Sul, o último balneário ao norte de Pontal do Paraná. Partimos do Balneário de Gaivotas. A família foi de carro enquanto eu fui pedalando. 

Percorri os 23 km da faixa litorânea de Pontal do Paraná, quase toda urbanizada, distribuída em vários balneários. Inicialmente, segui pela Avenida Beira Mar, mas no Balneário de Santa Terezinha o calçamento acabou. Segui pela areia mas logo cheguei num rio que deságua na praia e tive que subir para a rodovia.

Segui então pelo asfalto até Pontal do Paraná, passei a tarde na praia com a família e voltei de carro no final do dia.

Matinhos, 4 de janeiro de 2007

https://drive.google.com/open?id=1rV3P1C78O43cfFElhjRofGSYccg4WLvz

Deixei a cereja do bolo para o final. O objetivo era pedalar na Estrada do Parati. Eu não sabia exatamente o que encontraria nela, muito menos onde terminava.

Parti do Balneário de Gaivotas e segui pela Avenida Beira Mar por quinze quilômetros até o centro de Matinhos, onde começa a Rodovia PR-508. Logo que se entra na rodovia avista-se a Serra da Prata, com seus vários morro cobertos de mata. Quase toda a serra fica dentro do Parque Nacional Saint-Hilaire Lange. A serra estava coberta de nuvens carregadas, o que ameaçava molhar o meu passeio. Prevendo chuva, parei num mercado, comprei coca-cola e pedi ao caixa que me desse três sacolas, que usei para empacotar meu celular e a câmera fotográfica.

Seguindo pela rodovia, não demorou a começar a chuviscar. A pista atravessa uma área riquíssima, berço de vida entre serra e mar. Dos lados da pista, floresta, charcos e rios. São as chamadas planícies aluviais. A floresta tem árvores de médio porte num solo permanentemente encharcado, com canais para todo lado.

Depois de alguns quilômetros pela rodovia, encontrei uma construção na beira da estrada, onde parei para pedir informação. O rapaz que me atendeu disse que eu deveria continuar e pegar a segunda entrada à esquerda. Segui em frente.

Cheguei no local indicado. A estrada parecia pavimentada, mas isso só durou trezentos metros. Depois da entrada de um pesque-pague, a estrada piorou muito. O mato avançava sobre a estrada e a água cobria alguns trechos. Fui seguindo. Queria realmente saber o que havia no final da estrada que avançava mata adentro.

Contudo, depois de insistir por mais alguns quilômetros e não haver nenhum sinal de melhora, resolvi voltar. Poderia haver cobras e locais alagados que me impedissem de avançar. Voltei.

De volta à rodovia, vi que a estrada continuava do outro lado da pista. Avistei algumas casas por lá e fui tentar conseguir alguma informação. Talvez eu estivesse no caminho errado. Atravessei o asfalto e fui recebido por um cão muito bonito, branco e amarelo. Cachorro de praia fica sempre limpinho. O cãozinho não me deu muita bola. Olhou, farejou, e seguiu seu caminho.

Segui pela estradinha. Avistei uma menina na janela de uma casa. Chamei-a, mas quem veio atender-me foi o seu pai, que me informou que eu estava no caminho certo. Ele disse que a estrada realmente estava ruim e que grupos de jipeiros costumavam passar por lá, por isso estava destruída.

Resolvi tentar novamente. Quando cheguei no asfalto, tive surpresa desagradável: o cãozinho branco estava no meio da pista, morto, foi atropelado. Que dó! Será que fui o culpado?

Entrei novamente na Estrada do Parati. Segui aos trancos e barrancos, pulando troncos caídos, entrando e saindo de poças d’água que não sabia se eram fundas ou rasas, em meio à planície aluvial. Depois de três quilômetros, a estrada fez uma grande curva à esquerda, adentrando em floresta de terra firme. A estrada melhorou um pouco nesse trecho. 

Passei por uma ponte e enfrentei o primeiro desafio forte do dia. A estrada sobe, passando entre o Morro Parati e o Morro do Mastro, adentrando no Parque Nacional Saint-Hilaire Lange. Subi a serra com dificuldade, tentando desviar dos buracos e dos pedregulhos soltos. A mata cobria a estrada que seguia esgueirando-se pelas encostas. No alto, a mata abriu-se um pouco e pude ver a grande planície litorânea paranaense. Dava até pra ver a Ilha do Mel e alguns navios navegando rumo ao Porto de Paranaguá.

Comecei a descer do outro lado do morro. Buracos, valas, pedras soltas. Os jipes acabaram com a estrada. Quando terminei a descida, sempre no meio da mata, cheguei à várzea do Rio Caminho Novo, entre os morros da Serra da Prata. A estrada, rebaixada em relação às laterais, estava cheia d’água. Trechos inundados, cheios de lama.

Fui seguindo até chegar a um atoleiro. Tentei passar, mas atolei a bike no meio. A trilha estava muito perigosa e isolada. Triste, desisti. Saí do atoleiro e comecei a voltar. 😥

Quando escalava o morro, ouvi barulho de motos aproximando-se. Parei e fiquei esperando elas passarem. Eram duas motos e três pessoas: João Antônio, de 50 anos, seu filho João Paulo e seu sobrinho Gabriel, 13 e 20 anos respectivamente.

Eles vinham de Guaratuba e pretendiam chegar ao Parati. Numa rápida conversa, disse-lhes como estava a estrada e que teriam problema para passar de moto. Então, convidaram-me a seguir com eles, o que de pronto aceitei. Era de companhia que eu precisava!

Fui de bike na frente, enquanto eles seguiam-me. Logo no primeiro atoleiro, vi que teríamos problemas. Eles não tinham experiência nenhuma com motocross. A moto mais pesada, uma Honda 250 cc, atolou logo na primeira poça. João Antônio tentou sair de lá, mas quanto mais acelerava, mais a moto afundava. Então, desmontou, entrou na lama e tentou levantar a moto, mas não conseguiu. Gabriel também tentou, mas era muito magrinho e a moto nem se mexeu. João Paulo nem tentou. Sobrou pra mim: “Tenta você, que é mais forte.” – disse João Antônio. Pois é, nessas horas rola até elogio. 🙂 Mas o fortão aqui também não conseguiu. 😦

Daí chamei o Gabriel pra dentro da lama e juntos tiramos a motoca. A união faz a força, literalmente! A outra moto, que ainda nem tinha entrado no atoleiro, uma Honda 125cc, era mais leve e passou rápido, sem parar. Esse perrengue foi apenas o primeiro. Logo a Honda 250 atolou novamente. Lá fui eu erguê-ma mais uma vez. Andou mais dez metros e parou novamente. Estava dando muito trabalho. Então, disse ao João Antônio: “Posso ir com a moto?” Aí o negócio rendeu. Eu fui com a moto e João Antônio foi empurrando a bike.

Consegui levar a moto por três quilômetros, até chegar a uma ponte semi-destruída. Não conseguimos passar com as motos. Atravessamos a pé. Eu segui de bike e os amigos, caminhando. No terreno pantanoso do outro lado da ponte, a estrada era alta e parecia uma ilha comprida pois os dois lados estavam alagados. Já estávamos próximos da Baía de Guaratuba.

Começamos a encontrar casas e roças. De repente, chegamos ao Rio Parati. Águas calmas e transparentes. Passamos ao lado do Sambaqui do Parati, atravessamos uma ponte pênsil sobre o rio e, do outro lado, chegamos à mercearia do Sr. Antônio. Cansados, fomos logo procurando algo para comer. Infelizmente, não havia quase nada. Comemos paçoquinhas e tomamos refrigerante.

Foi aí que descobri o que é o Parati. O rio empresta o nome à pequena comunidade agrícola e pesqueira nos fundos da Baía de Guaratuba. Há cerca de dez famílias morando lá, com suas roças de subsistência e pequenos comércios que começam a beneficiar-se com o turismo. O local é de difícil acesso por terra, mas de barco são apenas dez minutos de Guaratuba.

Conversa vai, conversa vem, o Sr. Antônio perguntou-nos se iríamos ver o salto. “Que salto?” – perguntei. Que surpresa! O que atrai turistas a este lugar é o Salto do Parati. O que me trouxe ali foi o gosto pela aventura, o salto foi um bônus inesperado. Convenci os colegas a caminhar mais um pouco e lá fomos nós!

A trilha é bem marcada em meio à mata. Basta seguir a margem do rio. Sobe bastante. Caminhamos cerca de 1200 m até chegar. O Rio Parati desce o Morro da Subida Grande e chega com bastante água ao salto que tem cerca de cinco metros de desnível, divididos em várias quedas.

Salto do Parati

O melhor dali é a grande piscina natural que se forma abaixo da cachoeira, com cerca de trinta metros de comprimento por dez de largura, partes rasas e fundas, água cristalina.

Curtimos a cachoeira por quarenta minutos. A água estava fria, mas nem tanto. Na volta, do alto da trilha, conseguimos avistar a Baía de Guaratuba. 

Na mercearia, com ainda mais fome, vasculhamos o comércio em busca de algo para comer. O Sr. Antônio disse que poderia fritar um salsichão, mas ninguém quis. Acabamos achando pipoca em grão e pedimos que ele estourasse para nós no fogão à lenha. Ficou deliciosa!

O dia já caminhava para o fim e apressei a turma para partirmos. Saímos do Parati às 17h. Caminhamos até a ponte e as motos ainda estavam por lá. Ufa! Eu já estava me preparando para sair pedalando quando João Antônio pediu-me para ir com a moto até atravessar a parte mais difícil. Lá fui eu. A moto só parou uma vez. Segui com ela por dois quilômetros, até chegar a um lugar mais firme onde fiquei esperando a turma. Devolvi a moto, peguei a bike e saí pedalando.

Logo os motoqueiros alcançaram-me. Eles passaram por mim e pensei que não os veria mais, mas quando comecei a subir o morro, lá estava o João novamente parado. Ele não conseguia passar por uma pequena ladeira de chão liso. Desci da bicicleta e empurrei a moto até ele conseguir sair.

Apesar de eu estar de bicicleta, segui na frente. A estrada tinha muita pedra solta e buracos, o que dificultava a passagem das motos. Atravessei o morro e fiquei esperando os motoqueiros onde a estrada aplanou. Seguimos juntos até a rodovia, onde me despedi dos meus novos amigos. Eles agradeceram-me pela ajuda, mas eu é que deveria agradecer pois foi o melhor passeio da viagem e, sem eles, não teria chegado lá.

Aí sim eles deixaram-me para trás, seguiram para Guaratuba e eu fiz o caminho de volta para o Balneário de Gaivotas.

Que aventura fantástica! No total, 65 km em um dia inteiro de pedal, caminhada e motocross.

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