Tunel do Lageado – Morro do Peru – Indiana – 27/01/2007

Botucatu, 27 de janeiro de 2007

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caiporas_logo_2012_alphaChegou a hora de conhecer um grupo de pedal que promete grandes aventuras. O slogan do Caiporas já diz tudo: “Aventura, amizade e cultura, sem frescura”.

Caipora é uma entidade da mitologia tupi-guarani. É representada como um pequeno índio de pele escura, ágil, nu, que fuma um cachimbo e gosta de cachaça.

Habitante das florestas, reina sobre todos os animais e destrói os caçadores que não cumprem o acordo de caça feito com ele. Seu corpo é todo coberto por pelos. Ele vive montado numa espécie de porco-do-mato e carrega uma vara. Aparentado do Curupira, protege os animais da floresta. Os índios acreditavam que o Caipora temesse a claridade, por isso protegiam-se dele andando com tições acesos durante a noite.

No imaginário popular em diferentes regiões do País, a figura do Caipora está intimamente associada à vida da floresta. Ele é o guardião da vida animal. Apronta toda sorte de ciladas para o caçador, sobretudo aquele que abate animais além de suas necessidades. Afugenta as presas, espanca os cães farejadores, e desorienta o caçador simulando os ruídos dos animais da mata. Assobia, estala os galhos e assim dá falsas pistas fazendo com que ele se perca no meio do mato. Mas, de acordo com a crença popular. é sobretudo nas sextas-feiras, nos domingos e dias santos, quando não se deve sair para a caça, que a sua atividade se intensifica. Mas há um meio de driblá-lo. O Caipora aprecia o fumo. Assim, reza o costume que, antes de sair numa noite de quinta-feira para caçar no mato, deve-se deixar fumo de corda no tronco de uma árvore e dizer: “Toma, Caipora, deixa eu ir embora”. A boa sorte de um caçador é atribuída também aos presentes que ele oferece. Assim, por sua vez, os homens encontram um meio de conseguir seduzir esse ente fantástico. Mas fracasso na empreitada é atribuído aos ardis da entidade. No sertão do Nordeste, também é comum dizer que alguém está com o Caipora quando atravessa uma fase de empreendimentos mal sucedidos, e de infelicidade. Há muitas maneiras de descrever a figura que amedronta os homens e que, parece, coloca freios em seus apetites descontrolados pelos animais. Pode ser um pequeno caboclo, com um olho no meio da testa, cocho e que atravessa a mata montado num porco selvagem; um índio de baixa estatura, ágil; um homem peludo, com vasta cabeleira.

Além desta mística toda, deste relacionamento próximo com a natureza, o que levou a turma a dar este nome ao grupo foi uma brincadeira entre eles, que se chamavam de caiporas quando alguém fazia ou falava alguma besteira.

Quem me contou sobre o grupo foi o Ricardo Pires Pereira. No sábado de manhã liguei para a bicicletaria Godoy, de onde o pedal partiria, e perguntei se teria pedal. A resposta foi sim. Assim, saí de minha casa às 14h e pedalei para o centro de Botucatu para encontrar a turma. Fui muito bem recebido pelo Eduardo Carrega, que quando me viu chegar foi se apresentando e dando as boas vindas ao grupo.

O tempo estava fechado, mas mesmo assim, 9 ciclistas apareceram para o pedal. Havia chovido muito pela manhã e até pouco antes das 13h. Saímos da bicicletaria às 15h. Descemos para a rua Amando de Barros e fomos seguindo rumo à praça Para Todos. No caminho, mais um ciclista se juntou a nós. Fernando Castro nos esperava na sua loja de roupas. Com 10 Caiporas o pedal seguiu. Pegamos a rua do curtume Pioneiro, pela qual cruzamos o rio Lavapés. O rio estava muito cheio, quase passando sobre a ponte.

Nossa primeira parada foi pra conhecer a velha estação ferroviária da cidade. Ela foi construída em 1934 para substituir a antiga, de 1906. Ela foi a terceira sede da estação, sendo a primeira construída em 1889. O prédio atual é muito bonito. Foi construído por Camargo & Mesquita Engenheiros, conforme consta numa placa fixada na estação até hoje. Mas ela está abandonada. É uma pena. Poderia ser transformada num museu imponente.

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Antiga estação ferroviária de Botucatu

Aos poucos a chuva veio novamente. Seguimos pelo entorno dos trilhos da estrada de ferro, às vezes pedalando sobre os trilhos, às vezes por estradas e às vezes por singles. O trecho final foi o mais chato. A única opção era pedalar pelos trilhos, e fizemos isso por 2 kms, até chegarmos num túnel.

Foi surpreendente. Não imaginava que teria esta experiência neste dia. Atravessar um túnel tão perto de minha casa. Se não fosse um lugar baixo, conseguiria ver o sobradinho onde morava dali. O túnel do Lageado tem cerca de 7 metros de diâmetro e 700 m de comprimento. Ele desce a Cuesta suavemente, passando sob a rodovia Alcides Soares.

Adentramos o túnel. No começo a luz vinda da entrada iluminava o caminho, mas como o túnel é em curva, logo a luz sumiu. Escuridão total. A galera foi acendendo as lanternas e estroboscópicas. Eu fui seguindo o pelotão. Era muito difícil pedalar ali dentro pois além da escuridão, atenuada pelas luzes das lanternas, o terreno era complicado. Os trilhos ficam numa parte elevada em relação ao chão, para que o trem fuja de alagamentos dentro do túnel. É um amontoado de pedras que deixam os trilhos a cerca de 70 cms acima do solo. Com isso, há um desnível partindo dos trilhos até bem perto da parede. E tudo coberto de pedras soltas, algumas bem grandes que só eram notadas quando passávamos por cima. Foram inúmeros tombos. Na metade do tunel, um susto, fomos surpreendidos por uma cadáver. Só haviam ossos e um pouco de couro. Era apenas um cão que entrou no túnel e não conseguiu sair. Do teto do túnel pingava muita água, que se acumulava em alguns pontos.

E finalmente chegamos do outro lado. Os 700 m pareceram ser bem maiores do que realmente são. Ver a luz chegando foi um alívio. Do outro lado, um local alto, pudemos fazer uma parada para observar o vale do Tietê.

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Saída do túnel do Lageado

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Os Caiporas, no dia que os conheci e passei a fazer parte do grupo.

 

Depois seguimos pelos trilhos e suas laterais até chegar no morro do Perú. O morro do Perú é um morro testemunho, que é uma área de terreno mais resistente do que a existente ao redor, que foi levada pela erosão. Ele “testemunha” que toda aquela área já foi mais alta e foi sendo levada pela chuva e pelo vento durante milhões de anos.

Já havia lido sobre o morro, e passado pela estrada que lhe ladeia, mas nunca o escalei. Desta vez subimos. É uma escalada tranquila. Seguimos pela trilha erodida que vai até o topo. A trilha começa fácil, pelo meio do pasto e vai ficando mais íngreme à medida que se aproxima do topo.

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Subindo o morro do Peru

O degrau final, que dá acesso ao cume, foi vencido com a ajuda das raízes das árvores, que formaram uma escada natural. Lá em cima, a mata é fechada, mas há uma espécie de salão, formado pela copa das árvores. Do lado de frente para a Cuesta há um precipício que é usado para fazer rapel. Foi chegar no topo e começou uma tempestade. Fomos literalmente lavados pela chuva.

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No alto do morro do Peru

A chuva passou em cerca de 15 minutos. Assim, descemos o morro e continuamos a trilha. Continuamos a descida de cuesta até cruzar o rio Bocaina, que estava com muita água. O pequeno riacho havia se transformado num rio de correnteza forte. Com água pelo joelho cruzamos o riacho.

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Rio Bocaina

Na primeira bifurcação pegamos a direita. A cerca de 200 m da estrada havia algumas ruínas, do que parece ter sido uma igreja um dia. Apenas a torre, um pedaço da fachada e uma caixa d’água restaram.

A estradinha seguiu beirando a Cuesta pelo lado de baixo. Fomos passando por trechos alagados da estrada. E assim chegamos na usina Indiana, um antigo engenho de cana-de-açúcar. O rio da Indiana também estava transbordando. O Fernado Castro foi o primeiro a tentar atravessar o rio pedalando, mas desequilibrou-se no meio e desceu da bike. Um outro colega que também tentava atravessar pedalando desequilibrou-se e caiu na água. A correnteza estava tão forte que foi lhe levando, e tivemos que correr para lhe ajudar. Quase aconteceu uma tragédia. Depois do susto, todos atravessaram o rio com a bike nas costas. Foram 2 travessias, já que a estrada faz uma curva e passa novamente pelo rio. Na segunda travessia, nenhum susto.

Chegou a hora de subir de volta pra cidade. Cruzamos a linha férrea e começamos a subida da serra da Indiana. As chuvas tinham castigado a estrada. Entre pedras soltas, buracos, trancos e barrancos fomos subindo. Logo eu e o Eduardo Carrega já estávamos sozinhos na dianteira. Deu pra perceber que ele era um dos melhores de pedal do grupo. Numa área de mata fizemos uma parada pra tomar água, numa fonte que descia da Cuesta. Presente de Deus!

Quando o resto da turma chegou, recomeçamos a subida. Ainda faltava muito. De repente o sol deu as caras e nos presenteou com um final de dia iluminado. De volta à cidade os Caiporas seguiram rumo à casa do Edu, e eu tomei o rumo de casa.

Belíssimo pedal. Turma muito boa. Grandes aventuras me aguardam junto com os Caiporas.

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