A esquecida Serra de Santo Inácio

Botucatu, 3 de fevereiro de 2007.

É um processo natural. A cidade vai crescendo e, aos poucos, os antigos caminhos vão desaparecendo, substituídos por estradas e ruas projetadas, pavimentadas. Locais históricos são encobertos, povoados são desocupados, abandonados, e a história que não foi escrita desaparece juntamente com as ruínas.

Santo Inácio foi uma pequena comunidade que se formou a poucos quilômetros de Rubião Júnior. No século XIX, por Rubião Júnior, na época chamada Capão Bonito, e por Santo Inácio, passava a estrada que conduzia tropeiros desde as fazendas de criação de gado do Rio Grande do Sul (Viamão) até os mercados consumidores (Bahia e Minas Gerais).

Leia mais sobre isso nesse link: http://www.ybytucatu.net.br/historia/ribeiraodacachoeira.html .

O objetivo do nosso pedal de sábado era encontrar o local onde ficava Santo Inácio. Eu fui pedalando desde minha casa, no Bairro Alto da Boa Vista, e encontrei a turma na Bicicletaria Godoy, centro de Botucatu. Lá estavam Edu Carrega, Vitinho, Fernando Castro, Marcão e seu filho, e eu.

Partimos por volta das 15 horas. Pedalamos até a Igreja de São Benedito, na Avenida Dom Lúcio. Por ali passava o Caminho de Dentro, que ligava Rubião a Botucatu. Saindo da igreja de São Benedito, a estrada segue pela rua Nicola Zaponi na diagonal, destoando totalmente do desenho regular das ruas que existem ali e marcando claramente seu curso original. Nas imagens de satélite é possível ver que os terrenos das quadras que bloquearam o caminho tem cortes diagonais internamente, registrando o percurso original da estrada. Isso revela que a cidade cresceu ao redor dessa estrada e ela não foi imediatamente removida pelo poder público, o que atesta sua importância.

Passamos por trás da JVC Eventos e, já percorrendo estradas de terra, chegamos à  Rodovia Marechal Rondon, próximo ao trevo da rodovia SP-209, a Castelinho. Cruzamos a pista e continuamos pelo outro lado. Oito quilômetros depois da Igreja de São Benedito, dobramos à direita, tomando o rumo do Morro de Rubião.

O Edu Carrega pensou que este caminho seria uma grande surpresa para todos, mas Marcão conhecia bem o caminho. Sua avó teve um sítio ali e Marcão passou boa parte da infância por lá.

Trecho erodido do caminho (fonte: ybytucatu.net.br)

Subindo a estrada, passamos por vários sítios e chácaras, trechos já esquecidos da velha estrada, sem vestígio do trânsito de animais que já suportou. Quando chegamos à “Chácara dos Fora de Forma” (parece piada, mas é o nome real), entramos numa estradinha à esquerda e logo encontramos um trecho abandonado da velha rota. Estrada profunda em relação ao nível do solo, coberta de mato. Ela desce em direção ao Córrego Água Fria, atravessa-o e depois sobe para chegar à área onde um dia existiu a Vila de Santo Inácio.

No local há poucas ruínas, distribuídas no que parecem ter sido as quadras da vila. Ela ficava no alto da Serra de Santo Inácio, nome que caiu em desuso e só é lembrada pelo nome dos bairros vizinhos. Dali, avista-se o morro de Rubião Júnior pelo sudeste. Aliás, a parte de trás do morro é bem mais interessante pois abriga área florestal.

Igreja de Santo Antônio, no alto do Morro de Rubião Júnior, e área da Serra de Santo Inácio ao fundo. (fonte: google.com)
Cachoeira de Rubião nos anos 40 (fonte: ybytucatu.net.br)

Depois de perambular pela área, cruzamos o riacho ao lado da estrada e seguimos em direção à tal mata atrás do Morro de Rubião. Deixamos as bikes embaixo de uma árvore e entramos na mata. Ali existe uma pequena queda d’água, que já foi bastante volumosa. É a Cascatinha, que dá nome ao riacho que nasce no entorno e cruza a mata. Apenas dois filetes de água escorriam desde o alto, conduzidos por raízes e cipós que cresceram acompanhando a água. Ela já teve bem mais água, mas o desmatamento e a ocupação urbana de sua bacia matou o córrego. A foto abaixo mostra como ela era. Não sei se foi tirada em um dia chuvoso, mas a diferença é brutal.

(foto da cachoeira em preto e branco)

Apesar da pouca água, o lugar é interessante. A água erodiu o famoso Arenito Botucatu e formou-se uma “panela” sob a queda. Entramos na panela e ficamos contemplando a beleza do lugar, com a cascata em nossa frente. Depois descemos até embaixo da queda e tomamos um banho.

Retomamos o pedal voltando às ruas de Rubião. Alguns colegas decidiram voltar para casa. Edu Carrega, Fernando Castro, Vitinho e eu continuamos a trilha. Seguimos por uma estrada que passa por trás da Unesp e segue a linha férrea. Depois, entramos na Fazenda Esperança e seguimos pelo meio da pastagem. Foi aí que quase levei um tombo feio. Vitinho seguia na frente em alta velocidade, saltando as curvas de nível, e eu o segui. Numa dessas curvas de nível, havia um caminho de vaca e para não passar por ele, saltei  com a bike, mas acabei caindo bem em cima de outra curva de nível. Foi um grande susto, mas consegui controlar a bike.

Mais alguns quilômetros pela fazenda e chegamos ao Pesqueiro Piracatu. Fernando e Edu ficaram por lá. Vitinho e eu continuamos. Subimos até a Rodovia Marechal Rondon e por ela até Botucatu.

Foram apenas trinta quilômetros de pedal.

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