Valle de la Luna – San Pedro de Atacama – Chile

por Evandro Torezan

San Pedro de Atacama, 2 de novembro de 2015

https://www.strava.com/activities/425320189

Pedalando pelo Deserto do Atacama, tudo ia conforme o planejado, até que:

E agora? Veja o que aconteceu …


A pequena San Pedro de Atacama, no Norte do Chile, é uma cidade charmosa encravada no mais alto e seco deserto do mundo, o Atacama. Lugar de vulcões ativos, terremotos e clima severo, não parece ser um bom lugar para morar, mas foi aí que se fixou o povo atacameño (atacamenho). Por volta de 8 mil anos a.C, o povo atacameño, até então nômade, passou a fixar-se às margens do Rio Loa  e no entorno de oásis como o de San Pedro. Assim começou a ocupação do território onde desenvolveram agricultura e pecuária.

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Mochilão pelo Peru, Bolívia e Chile trouxe-me a San Pedro. No dia em que coloquei meus pés no Chile, o chão tremeu. Foi meu primeiro terremoto. Eu pensei que era alguma caminhão passando pela rua, mas quando percebi que não era, afastei-me da parede, em cuja sombra abrigava-me, o suficiente para ficar longe de seu alcance caso ela caísse.

Pela manhã eu havia feito passeio de van para conhecer alguns pontos turísticos da cidade, como gêiseres e vulcões. A tarde eu deixei reservada para pedalar pelo deserto mais seco do mundo.

Come-se muito bem em San Pedro. Enquanto eu almoçava salmão com batatas num pequeno restaurante do centro da cidade, analisei o tracklog que preparei ainda no Brasil. Eu havia planejado percorrer dois lindos vales no deserto: o Valle de la Luna e o Valle de la Muerte.

Havia várias lojas que alugavam bicicletas. Apesar de o aluguel ser mais caro, preferi alugar na loja chamada Apacheta, a única que alugava bikes de aro 29. Custou-me quatro mil pesos.

Conversando com o dono da loja, comentei sobre meu objetivo (os dois vales). Ele disse-me que não daria tempo. Veremos.

A bicicleta era Trek, modelo recente, mas a manutenção não era das melhores. Saí da loja seguindo meu tracklog, mas antes mesmo de sair da cidade, tive que voltar à loja. O freio a disco estava desregulado, segurando muito a bicicleta. Infelizmente, não havia muitas opções na loja. A única bike restante estava com marchas desreguladas. Tive que trabalhar, já que os mecânicos presentes não estavam muito dispostos a consertar a bicicleta. Pedi chaves e alicate, estiquei o cabo do câmbio traseiro e regulei as marchas. Serviço concluído, saí rápido da loja, antes que recebesse alguma proposta de emprego.

Com a pedalada fluindo melhor, cheguei rapidamente ao limite urbano de San Pedro. Foi lá que percebi que não seria um pedal muito fácil: ventava muito.

Os primeiros 7,5 km foram pelo asfalto da rodovia 23-CH, até entrar no parque. Logo na entrada há um centro de informações. Entrei e paguei a entrada: cinco mil pesos. Duas moças estavam por lá, preparando-se para sair. Pareciam inglesas ou alemãs e não tinham cara de ciclista.

Lá fui eu. Segui pela Ruta Valle de la Luna, estrada de chão. Ao norte, montanhas de arenito.

Mesmo descendo, era preciso pedalar. O vento contra parava a bicicleta. Logo passei pelas gringas, que haviam saído antes de mim. A descida terminou numa ponte sobre um vale seco, por onde deve passar muita água em dias de chuva.

Quase não há vegetação, apenas algumas moitas de capim nativo. É que além de ser solo muito pobre, sem matéria orgânica e sem água, ele é salgado. Montanha ao norte parecia estar nevada, mas na verdade era sal misturado à areia marrom.

Há vários pontos de parada pela estrada, locais interessantes para conhecer, mas eu não parei em nenhum. Como meu objetivo era percorrer os dois vales, tinha que me adiantar.

Depois da baixada, comecei a subir. A estrada envereda-se pelo vale em meio às montanhas.

Sem a proteção do terreno, o vento aumentou. Era um vento absurdo. Quando cheguei no alto é que a situação piorou: o vento forte trazia areia. O vento passava por dunas entre as montanhas e jogava areia na estrada. Como o vento era muito forte, chegava a doer quando os grãos de areia batiam na pele. Tive sorte por estar com meus óculos, senão seria impossível continuar.

Encontrei outra dupla de ciclistas. Em meio à tempestade, o casal seguia empurrando as bicicletas. O homem até estava com uma cara boa, mas a mulher estava com um bico enorme. Pelo jeito, foi convencida a fazer um “ótimo passeio de bicicleta” pelo parque e não estava gostando nem um pouco.

O casal tentando pedalar

Cheguei ao ponto mais alto da estrada dentro do parque. Passei pelo Anfiteatro, montanha que parece uma mesa cuja parte central afundou-se, mantendo as bordas verticais.

Logo à frente, La Gran Duna, a Grande Duna, realmente enorme.

Sem a proteção das montanhas, cheguei à área mais exposta ao vento. O terreno era em declive, mas eu era forçado a pedalar forte, como se estivesse subindo. Resolvi fazer um teste: virei a bike, como se fosse voltar, pra ver se o vento me empurrava na subida. O vento me levou! Era subida leve, mas o vento conseguia empurrar-me. Foi o vento mais forte que enfrentei na vida.

Passei por outro ciclista solitário quase no final do parque. Ele estava indo visitar a atração chamada Três Marias. São algumas colunas de rocha ao lado da estrada, que parecem esculturas.

Depois das Três Marias havia uma barreira física, de correntes, com a inscrição “Limite do parque. Não ultrapasse. Perigo.” Pensei comigo: O que pode haver de perigoso aqui? Continuei.

Logo após essa barreira, há uma forte descida. A estrada é coberta de sal e desce ao lado de uma duna gigante.

Em certos pontos, era como se o sal brotasse do solo, formando figuras curiosas. Essa parte estava protegida do vento.

A estrada de chão levou-me entre dunas, vales secos e montanhas, até chegar ao real limite do parque. Mais um pouco de pedal e cheguei à rodovia B-241, sem asfalto. Foi aí que entendi o motivo do “perigo” citado na barreira dentro do parque. Ao chegar ao entroncamento, olhei rapidamente à esquerda e vi uma placa verde. Eu já me encaminhava para a direita, pelo caminho que o tracklog mandava-me seguir, quando meu cérebro entendeu o que estava escrito na placa. Parei imediatamente. Voltei e conferi se eu havia entendido direito. A placa alertava, em quatro línguas diferentes: PERIGO, CAMPO MINADO.

Perigo: campo minado

O Chile tem vários campos minados espalhados por suas fronteiras. Eu nem imaginava isso. As minas foram implantadas nos anos 1980, quando o General Augusto Pinochet comandava ditatorialmente o país. O Chile encontrava-se em meio a uma disputa por fronteiras com três de seus vizinhos: Peru, Bolívia e Argentina. Por isso, Pinochet, certo de que uma invasão terrestre era iminente, comprou minas terrestres e distribuiu-as pelo país. Em poucos anos, cerca de 180 mil minas terrestres foram enterradas ao longo das fronteiras do Chile.

Felizmente, meu caminho era à direita.

Aos 26 km de pedal cheguei à rodovia 23-CH, asfaltada. Segui à direita, rumo a San Pedro de Atacama.

Agora o vento estaria ao meu favor. Nesse trecho tive que optar: seguir ou não para o Valle de la Muerte. Diante do que havia passado até ali, preferi não me arriscar novamente por estradas desconhecidas. E se eu encontrasse outro campo minado? E se o nome do vale fosse confirmado?

Quem pensou que a diversão havia acabado, enganou-se. Aos 28 km comecei a escalar a Cordillera de la Sal, ou Cordilheira de Sal. Como o nome diz, a areia marrom está misturada com sal. São belas paisagens, muito secas, mas belas, bem diferentes do que estamos acostumados no Brasil. Depois, descendo a cordilheira, locais inusitados, como um grande conjunto de pequenos morros por onde a estrada passou pelo meio.

Encontrei alguns cavaleiros entrando no Valle de la Luna pela parte de trás do parque. A rodovia corta o parque em sua parte nordeste.

E assim, voltei para San Pedro. Daria tempo de fazer os dois vales. Foram apenas quarenta quilômetros de pedal, com pouco menos de quinhentos metros de ascensão, mas que proporcionaram experiências inesquecíveis.


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