Venda Vivan – 07-08-2005

Botucatu, 7 de agosto de 2005

https://www.gpsies.com/map.do?fileId=zptyuhullvxyolbi

“A melhor coxinha de galinha do Brasil”, quem diria, é feita no alto da Cuesta, em Pardinho, e quem afirma não sou eu. À beira do precipício fica uma pequena e antiga venda, dos tempos em que, no campo, morava quase toda a população brasileira. A Venda Vivan foi eleita pela revista Quatro Rodas a produtora da melhor coxinha de galinha do Brasil. Foi pra lá que apontamos a frente de nossas bicicletas neste domingo.

O passeio seria também a despedida do nosso amigo Houtan, que depois de terminar sua pós-graduação na Unesp, estava voltando para os Estados Unidos.

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No domingo de manhã, Jefferson e eu saímos de nosso condomínio e rumamos para a catedral de Botucatu. No caminho, encontrei uma chave de carro jogada no chão em frente à Escola Normal. Era uma chave de Volkswagen e vinte metros à frente havia um Santana Quantum estacionado, o único carro parado ali naquele horário. Curioso, testei a chave no carro. Abriu! Pensei em ligar para a polícia. Poderia se um carro roubado, usado em assalto ou sequestro, que fora abandonado ali. Mas também poderia ser de alguém que, simplesmente, perdeu a chave. Deixei a chave na porta do carro e seguimos nosso caminho.

Quando chegamos na catedral, Ricardo e Houtan já estavam por lá. Houtan havia vendido sua bike e não conseguiu emprestar outra para nos acompanhar. Foi até a catedral apenas para tirar uma foto conosco e voltou para casa.

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Da esquerda para a direita: Ricardo, Jefferson, Evandro e Houtan.

Saímos de Botucatu pela Rodovia Gastão Dal Farra. Pegamos a estrada da Fazenda Demétria onde entramos, passando pela frente da Pizzaria Bel. Logo à frente há uma bifurcação em que seguimos pela esquerda, em direção ao Sítio Bahia. Mais alguns quilômetros e outra bifurcação, onde há uma placa indicando o caminho para Pardinho, por onde seguimos. Passamos ao lado da Cachoeira da Demétria (Cachoeira do Segredo), mas não entramos. Dali para a frente, a estrada não tem desvios importantes. Vai cruzando pastagens, rios, matas e plantações. Seguindo por este caminho, Pardinho dista 31 km de Botucatu, de catedral a catedral.

RumoAPardinho

No sábado, Botucatu foi palco de uma corrida de aventura. Os Jogos de Aventura Ecomotion foram divididos em duas categorias: prova longa e prova curta. Eu, mais uma vez, fiquei na vontade devido à falta de um parceiro. A prova curta partiu do Lageado e terminou na catedral de Pardinho.

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Chegamos na catedral fazendo festa, como se estivéssemos terminando a prova naquele momento. Alguns homens que estavam em um bar até nos zoaram:

– Ei a corrida foi ontem.
– É que nós nos perdemos! – respondi irônico.
– É uma corrida muito sofrida – disseram.

E vejam que coincidência: eles sugeriram que fôssemos conhecer o Vivan, por tratar-se de um lugar muito bonito.

Foi o que fizemos. Saímos da cidade e tomamos uma estrada de terra que sobe a Cuesta. Quando termina a subida ela segue pelo alto revelando, a cada quilômetro, belas paisagens.

Paramos em um local pedregoso, ao lado da estrada, para contemplar a vista. Bem em nossa frente estava o preguiçoso “Gigante Deitado”, com sua barriga enorme, e as Três Pedras, que formam seus pés. Trechos da Cuesta coberta de mata e inúmeros sítios na baixada podem ser vistos lá de cima.

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O “Gigante Deitado” ou “Gigante Adormecido” é um conjunto de morros espalhados pelo município de Bofete. É um gigante barrigudo, de tronco comprido, pernas curtas e pés pequenos, mas é totalmente identificável pelo visitante. Se ficasse em pé, nosso gigante teria sete quilômetros de altura. A melhor vista é na estrada do Vivan, ou nos fundos da venda, cruzando a cerca e caminhando um pouco pelo pasto.

Continuando pela estrada, chegamos ao Vivan. Eu estava com muita fome e não via a hora de chegar lá e atacar as melhores coxinhas de galinha do Brasil. Mas fiquei na vontade. A venda estava fechada.

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A Venda Vivan fica no alto de uma ponta da Cuesta. Tanto ao norte quanto ao sul há ladeiras. Ao norte, está o Gigante, e ao sul, a cerca de 20 km serra abaixo, está o Posto Rodostar, às margens da Rodovia Castelo Branco.

Além dos cães que estavam por ali, não havia mais nenhum outro sinal de vida. Esperamos um pouco pelo filho do Ricardo, Roberto, que veio buscá-lo. Ricardo voltou de carro para adiantar a preparação de um legítimo churrasco gaúcho para despedirmo-nos de Houtan.

Jefferson e eu pegamos o caminho de volta. Foi muito bom descer a ladeira que dá acesso a Pardinho. Cortada por várias curvas de nível, é ótima para downhill. Em Pardinho, paramos no mercado da esquina da igreja para comer alguma coisa e aguentar o caminho de volta. Cidade pequena é outra história. Bem ali, na frente da igreja, em pleno centro da cidade, uma das principais ruas da cidade estava interditada para os moradores jogarem malha.

O Jogo da Malha, tem sua origem em Portugal. Começou a ser praticado por soldados do exército romano, que lançavam ferraduras já sem serventia em direção a um pino fixado no chão, para treinar a pontaria. Depois, as ferraduras foram substituídas por discos de metal ou pedras chatas. O jogo foi introduzido no Brasil pelos portugueses. O objetivo é lançar os discos deixando-os os mais próximo possível do pino ou derrubá-lo.

Depois de comer, pegamos a estrada de volta para Botucatu. Voltamos pela Estrada de Botucatu, asfaltada, que segue pelo alto da Cuesta. Saindo da cidade há uma enorme ladeira que nos deu as boas vindas. No meio dessa ladeira, havia um amontoado de galhos e folhas secas à beira da pista. Quando passei perto, ouvi um estalar contínuo entre as folhas. Parecia o som de folhas pegando fogo, mas não havia fumaça. Fiquei curioso e parei para observar com mais cuidado. Não era fogo, eram formigas. Algumas eram enormes, cabeçudas. Eram as famosas saúvas. Elas cortavam as folhas e as carregavam. O som do corte das folhas, com suas poderosas pinças, e do caminhar sobre as folhas secas é que geravam aquele som semelhante ao do fogo.

A saúva já foi considerada a maior praga agrícola do Brasil. Elas cortam folhas e galhos de plantas que são carregados para os ninhos a fim de criar os fungos que constituem o seu alimento exclusivo. Era uma praga tão temida na década de 1920 que companhias colonizadoras, como a Companhia de Terras Norte do Paraná, em seus anúncios, traziam os dizeres: “Não há saúvas” e “Não temos saúvas”.

Quando Jefferson chegou, perguntou-me: “Está pegando fogo por baixo?” Eu respondi: “Olhe com atenção.” E ele, atentando-se, exclamou: “Caramba! São formigas!”

Seguimos. Estávamos atrasados para nosso compromisso com Ricardo e ainda muito longe de casa. Na velocidade que o Jefferson vinha, levaríamos duas horas para chegar em casa. Liguei, então, para minha esposa. Pedi que viesse nos buscar mas ela não poderia pois não haveria com quem deixar nosso filho. Pedi então que ela chamasse a namorada do Jefferson para acompanhá-la. Nisso, Jefferson me alcançou e disse que não era necessário pois iria acelerar. Continuamos.

Logo passaram por nós vários carros carregando bikes. Eram as equipes que participaram da corrida de aventura do sábado que estavam voltando para São Paulo, passando por Pardinho para fugir do pedágio da Castelo Branco. Todos buzinaram para nós. Retribuímos acenando.

O Jefferson realmente acelerou. Chegamos no Posto Mirante da Serra, na Rodovia Marechal Rondon, às 12h10. Dali até nosso condomínio seriam onze quilômetros de pedal.

Entramos na cidade pela Rua Amando de Barros, onde não aguentei mais esperar o Jefferson e corri para casa, chegando às 12h50. Pedalamos 79 km, distância recorde para o Jefferson.

Tomei um banho bem rápido e fui para a casa do Ricardo, onde o churrasco já era servido. Foi um bom almoço. Nos despedimos de Houtan e de sua família, que volta para os Estados Unidos, onde ele trabalha como pesquisador. Estou certo de que ele levará consigo lembranças inesquecíveis de nossa terra e de nossas aventuras. Boa viagem, amigo.

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