Trilha Cristal Elite – 27/03/2021

Brasília, 27 de março de 2021.

Tracklog: https://www.strava.com/activities/5028368721

Esta pandemia que vivemos deixou-me preguiçoso. Era algum colega chamar para uma trilha mais pesada que eu já tinha a desculpa pronta: “Tô evitando aglomeração.” Os primeiros meses de pandemia meteram medo e eu passei a pedalar só no asfalto, assim como a maioria dos meus colegas. Enquanto isso, nossos admiráveis governantes prepararam o sistema de saúde para absorver os enfermos acometidos pelo coronavírus. #sqn

O tempo passou e, aos poucos, fomos voltando à sofrência. Não conseguimos ficar tanto tempo afastados das trilhas. Pelo menos o tamanho dos grupos diminuiu, para evitar aglomerações. Nos últimos finais de semana, o nível das trilhas que participei subiu. Fui dois sábados seguidos para a Fundão, lá pros lados das Serras do Maranhão, encarar boas subidas, e nesse final de semana fui convidado pelos amigos do Bike Top Team a percorrer a desafiadora Cristal Elite.

Fomos de carro até o cantinho noroeste do DF e estacionamos no Restaurante Lima, no entroncamento da BR-080 com a DF-205, onde o gentil Seu Manoel nos permite deixar os carros. O Restaurante Lima é mais conhecido pelos ciclistas de Brasília como “Bar do Bife”. É que temos uma trilha passando por lá que se chama Trilha do Bife e o nome deve-se exatamente ao enorme bife servido no restaurante. Mas quem for deixar o carro lá, é bom conversar com o Seu Manoel, veja aí o recado dele.

Devidamente avisados e preparados, aguardamos o último ciclista chegar e partimos para o desafio às 8 horas da manhã. Anderson, Andrés, Fernando e eu integramos o quarteto que infiltrou-se naquela morraria.

Seu Manoel, Fernando, Anderson, Andrés e Evandro.

A trilha começou pela DF-205. Oito quilômetros depois do bar cruzamos a divisa e entramos em território goiano, no município de Padre Bernardo. Pedalamos 13,5 quilômetros pela rodovia e comemos muita poeira pois ela não tem calçamento e recebe grande fluxo de caminhões vindos da Mineradora Rio do Sal, que levantam muito pó quando passam.

A DF-205, nesse trecho que percorremos, foi construída no vale do Rio do Sal. As bordas do vale são altas. Ao sul está a Chapada Imperial e, ao norte, a porção oeste das Serras do Maranhão.

Saímos da rodovia para entrar na área rural conhecida como Cristal. Cruzamos o Rio do Sal 1,5 quilômetro depois e logo começaram as subidas.

Ponte sobre o Rio do Sal

O primeiro desafio teve 2,5 quilômetros com 166 metros de subida e, depois de um rápido alívio, mais 2 quilômetros com 126 de subida. Adentramos em belas áreas de cerrado. Morros cobertos de vegetação cortados pelas estradinhas que tanto amamos.

Olhando para os lados da DF-205, podíamos ver a névoa poeirenta confinada no vale. Felizmente, longe da rodovia, o ar estava puro.

Névoa cobrindo o vale do Rio do Sal onde passa a rodovia. Chapada Imperial ao fundo.

Quando íamos começar a descer, meus amigos seguiam alguns metros à frente, meu pneu dianteiro furou. Eles não me ouviram chamar. Parei sob uma árvore e troquei a câmara de ar. Quando estava terminando, a turma apareceu de volta. Terminamos o reparo e seguimos.

Desde a ponte, seguimos acompanhando o Rio do Sal (a cerca de um quilômetro dele) por dez quilômetros, trecho em que ele corre no sentido sul-norte. As paisagens nesta área são muito bonitas. Nesse trecho, passamos pelo local mais alto da trilha, aos 1.008 metros de altitude.

Começamos a descer e adentramos área selvagem, lugar muito agradável para se pedalar. Pelo alto dos morros passamos por alguns tobogãs, sempre com belas vistas nas baixadas e no horizonte. 

Depois, entramos numa fazenda de gado. Os animais, ao perceberem nossa presença, saíram correndo pela estrada. Seguimos atrás. No final da estrada formou-se um aglomerado de bois. Era o final da pastagem e eles estavam acuados entre nós e a cerca. Foi um momento tenso. Os animais mantiveram-se na estrada, defronte o colchete por onde tínhamos que passar e em ambos os lados havia ribanceiras. Escolhemos o lado menos íngreme e passamos, poucos metros abaixo do nível da estrada. Quando os animais viram que a estrada estava livre, saíram todos correndo e liberaram a passagem.

É bom tomar cuidado nesses enfrentamentos de gado. Movimentos bruscos podem causar acidentes. Gado nelore é arisco, curioso e imprevisível. Aliás, caso queira conhecer um pouco mais sobre a história do nelore no Brasil, acesse o site da Fazenda Cachoeira, situada em Sertanópolis/PR.

Seguimos morro abaixo. Tínhamos que atravessar o curral de uma fazenda, ao lado da sede, e fomos recebidos por uma matilha de seis cães. Felizmente, eram amigos e até ganharam um sanduíche como pedágio.

Estávamos com 26 quilômetros rodados quando chegamos no local onde o Córrego Mato Feio deságua no Ribeirão das Salinas. Parecia que já tínhamos pedalado centenas de quilômetros e ainda não estávamos nem no meio da trilha. Estávamos no ponto mais baixo do percurso: 731 metros de altitude. Paramos para lanchar.

Atravessamos o Salinas e seguimos entre os morros do outro lado. Logo chegamos novamente ao Córrego Mato Feio e o atravessamos. Comprei um terreno aí. O pneu derrapou no barro, a sapatilha travou e eu caí de lado.

Esses nomes salgados, Rio do Sal, Ribeirão das Salinas, não são mera criatividade dos pioneiros. Na região há depósitos de sal. A Gruta do Sal é um exemplo.

Gruta do Sal – Noroeste do Distrito Federal

O sal é um mineral importantíssimo para a alimentação humana e para a criação de gado. Nos primórdios da colonização do interior do Brasil, em locais tão longínquos do litoral, salinas tinham que ser encontradas para viabilizar o pastoreio.

A saída do Mato Feio tem 2,7 quilômetros e 151 metros de ascensão. É um trecho um pouco confuso pois segue por estradas e trilhas mal definidas no meio do pasto. Em alguns momentos pensei que estava perdido, mas não. É bom passar atento.

Aos 36 quilômetros paramos numa fazenda para pegar água. Ela fica ao lado de um lago, parece um pesque-pague, com alguns quiosques em volta. Logo na entrada, ao lado da porteira, há uma torneira de água potável. Eu ainda tinha cerca de um litro d’água no camelbak e achei que seria suficiente, por isso não enchi.

Depois dessa fazenda, adentramos em outra grande área selvagem. São aproximadamente vinte quilômetros de trilhas num sobe e desce cansativo pelos morros. Casinhas isoladas aparecem de vez em quando. A vista é ótima, mas o trecho é difícil. Há quatro picos desafiadores, de 265, 135, 151 e 93 metros de subida. Então, o negócio é passar por essa área sem pressa, apreciando a vista.

Um morro cujo nome desconheço destaca-se na área, sendo presença constante na paisagem.

Local interessante é uma ladeira que passa num estreito vale entre dois morros. Nós paramos no alto para esperar os amigos Andrés e Fernando que já estavam com a bateria fraca.

E nesse sobe e desce de morros, finalmente chegamos à Fazenda São Sebastião. A passagem pela entrada da fazenda traz certo alívio. Da porteira até o asfalto são apenas cinco quilômetros, sinal de que o pior já passou, apesar de haver ainda algumas boas subidas. O problema é que ao passar pela porteira, percebi que minha água havia acabado. Felizmente, faltava pouco.

E finalmente, às 14h40, alcançamos a BR-080. Seguimos por ela por dois quilômetros, cruzando a divisa Goiás/Distrito Federal e alcançando o Restaurante Lima. Infelizmente, o restaurante já estava fechado e não pudemos comer o bife.

Foram 60 quilômetros de trilha com 1.865 metros de subida. Trilha pesada, não recomendada para iniciantes.

2 comentários sobre “Trilha Cristal Elite – 27/03/2021

  1. Pingback: Trilha Tarja Preta – 10/04/2021 | Ser Pedalante

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